O que está acontecendo na Amazônia? 20 de maio de 2026

COREM e UFPA repudiam nomeação de filho de vereador para direção do MABE: “Ataque à memória de Belém”

O Museu de Arte de Belém (MABE), um dos guardiões da memória cultural da capital paraense, tornou-se o centro de um embate que mistura apadrinhamento político e falta de transparência. No centro do escândalo está a nomeação de Josias da Silva Higino Filho para um cargo de comando na estrutura do museu. Bacharel em Matemática […]

O Museu de Arte de Belém (MABE), um dos guardiões da memória cultural da capital paraense, tornou-se o centro de um embate que mistura apadrinhamento político e falta de transparência. No centro do escândalo está a nomeação de Josias da Silva Higino Filho para um cargo de comando na estrutura do museu. Bacharel em Matemática e sem qualquer trajetória nas artes ou na museologia, Josias é filho de um vereador Josias da Silva Higino do Partido Social Democrático (PSD), aliado do prefeito Igor Normando (MDB).

A nomeação não passou despercebida pelos órgãos de classe. O Conselho Regional de Museologia (COREM 1ª Região) e o Centro Acadêmico de História da UFPA emitiram notas de repúdio severas. As entidades alertam que a gestão de um museu exige competências técnicas específicas previstas em lei federal, e que o “amadorismo” e o “improviso” colocam em risco o acervo e a memória da cidade.

Leia a nota na íntegra:

O Conselho Regional de Museologia da 1ª Região (COREM 1R) vem a público manifestar repúdio à nomeação de Josias da Silva Higino Filho para o cargo de diretor do Museu de Arte de Belém (MABE).

A nomeação contraria os princípios estabelecidos no Estatuto dos Museus (Lei Federal nº 11.904, de 14 de janeiro de 2009). O Estatuto estabelece que a gestão dos museus deve observar a excelência técnica, a salvaguarda e a valorização do patrimônio cultural.

A indicação política de um profissional recém-formado em Matemática desrespeita diretamente a categoria dos museólogos. O gestor em questão não possui histórico, formação ou experiência técnica em museologia, gestão de patrimônio ou artes visuais.

Os museus são instituições complexas e estratégicas para proteção da memória coletiva, da diversidade cultural e da identidade cultural de uma sociedade. A gerência desses espaços exige conhecimento científico específico, compromisso ético e experiência compatível para garantir a preservação, salvaguarda e difusão do acervo. A ausência de critérios técnicos na escolha de cargos de chefia coloca em risco o patrimônio histórico de Belém.

O COREM 1R reafirma a necessidade de cumprimento da Lei Federal nº 7.287/1984, que regulamenta a profissão de museólogo, bem como da valorização da gestão técnica e qualificada nas instituições museológicas brasileiras.

A ocupação de diretorias de museus por pessoas sem qualificação adequada configura um grave retrocesso para as políticas culturais do município.

Exigimos da Prefeitura de Belém a revisão imediata desta nomeação e a valorização dos profissionais técnicos da área com adoção de critérios técnicos e transparentes para a ocupação de funções estratégicas na área da cultura e do patrimônio.

Belém – PA, 14 de maio de 2026.

Conselho Regional de Museologia – 1ª Região (COREM 1R)

Leia a nota na íntegra:

O Centro Acadêmico de História Prof. Jorge Paulo Watrin vem a público manifestar o seu mais profundo repúdio à nomeação de Josias da Silva Higino Filho para o cargo de diretor do Museu de Arte de Belém (MABE). A decisão da atual gestão municipal de Belém representa não apenas um equívoco administrativo, mas um ataque direto à preservação da memória, à seriedade da museologia e ao respeito pelos profissionais e pesquisadores das artes e da história em nossa capital.

Conforme denunciado e confirmado pelo Portal da Transparência, o novo diretor é recém-formado em Matemática e não possui qualquer experiência técnica ou histórico público ligados à museologia, gestão de patrimônio histórico ou artes visuais. O currículo do nomeado aponta para uma trajetória de cargos políticos por conveniência, tendo ocupado funções importantes na prefeitura desde 2014, em governos que tiveram o apoio do seu pai Josias Higino (vereador de Belém), apoiador também do prefeito Igor Normando, evidenciando uma prática de loteamento de equipamentos culturais em favor de alianças políticas.

Inspirados pela história de lutas que forjou nossa identidade acadêmica, reafirmamos que a história se faz na resistência. Não aceitaremos o sucateamento intelectual de nossas instituições. A nomeação de um profissional sem formação na área para dirigir o MABE é um desrespeito à categoria dos museólogos, historiadores e artistas que dedicam suas vidas ao estudo e proteção do nosso patrimônio.

O avanço do apadrinhamento político na Secretaria de Cultura e na Secretaria de Turismo (Setur) acende um alerta sobre as prioridades da atual gestão às vésperas de grandes eventos internacionais na capital. Ao ocupar cargos técnicos com indicações políticas, inclusive de figuras com passagens por pastas sem qualquer relação com a área, como a Secretaria de Justiça, a prefeitura ignora profissionais de carreira e ignora a legislação vigente.

O jornal Amazônia no Ar solicitou formalmente um novo posicionamento da Prefeitura de Belém acerca da contradição entre seus comunicados e sobre as notas de repúdio das entidades técnicas. Até o momento, a gestão silenciou sobre os novos questionamentos. O espaço segue aberto para esclarecimentos que justifiquem a escolha de um profissional da Matemática para gerir o patrimônio artístico da cidade.

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