Tecnologia ancestral e inovação: O empreendedorismo amazônico
No nordeste paraense, na zona rural de Curuçá, nasceu um projeto que hoje transforma ingredientes tradicionais da Amazônia em produtos com identidade, memória e inovação. A iniciativa surgiu da vivência direta com a agricultura familiar e da observação da realidade enfrentada por muitas famílias do interior amazônico, que dependem exclusivamente da subsistência. O ciclo da […]
No nordeste paraense, na zona rural de Curuçá, nasceu um projeto que hoje transforma ingredientes tradicionais da Amazônia em produtos com identidade, memória e inovação.


A iniciativa surgiu da vivência direta com a agricultura familiar e da observação da realidade enfrentada por muitas famílias do interior amazônico, que dependem exclusivamente da subsistência. O ciclo da mandioca, por exemplo, exige meses de espera até a colheita, período em que muitas vezes a renda não é suficiente para garantir estabilidade financeira ao longo do ano.
“Meu incômodo sempre foi enxergar que a gente vivia esperando a roça amadurecer para conseguir sobreviver. Desde criança eu queria encontrar formas de transformar aquilo em algo que pudesse trazer mais conforto financeiro para as famílias”, explica o fundador.
A partir desse olhar, a Mearim começou a estudar maneiras de agregar valor aos ingredientes tradicionais amazônicos, especialmente à mandioca e seus derivados. Produtos comuns nas feiras e mercados populares, como o tucupi, passaram a ganhar novas possibilidades gastronômicas e comerciais.
Com trajetória também na gastronomia, Leo uniu os conhecimentos da agricultura tradicional à experiência como cozinheiro e chef de cozinha. O resultado foi o desenvolvimento de subprodutos amazônicos que carregam narrativas ancestrais e técnicas contemporâneas de produção.
Um dos principais diferenciais da marca está justamente nessa união entre tradição e inovação. A empresa utiliza o que define como “tecnologia ancestral”, conhecimentos transmitidos por gerações através da observação e da prática cotidiana, junto a técnicas modernas de cocção, conservação e pasteurização.
“Lá em casa a gente aprendia observando. Minha mãe nunca chegava ensinando diretamente, ela colocava a gente ao lado dela para olhar o processo. Esse conhecimento veio dos meus avós e foi sendo passado de geração em geração”, relembra.
Essa combinação de saberes permitiu a criação de produtos únicos, como o tucupi preto, obtido através da fermentação e redução do tucupi tradicional até alcançar um sabor intenso e concentrado, semelhante ao umami.
Outro destaque é o melaço de mandiocaba, considerado hoje um dos produtos mais emblemáticos da Mearim. A mandiocaba é uma variedade rara de mandioca naturalmente doce, catalogada entre milhares de espécies existentes na Amazônia. A partir dela, a empresa conseguiu desenvolver um adoçante natural semelhante ao melaço de cana, sem adição de açúcar.
A ideia nasceu da busca por alternativas mais conectadas à biodiversidade amazônica.
“Eu olhava para os ingredientes da nossa terra e me perguntava: será que eu não consigo adoçar um produto usando a própria mandioca? Foi daí que começou toda a pesquisa até chegar ao melaço de mandiocaba”, conta.
Apesar do potencial gastronômico, transformar a mandiocaba em um produto comercializável foi um dos maiores desafios enfrentados pela empresa. A variedade é altamente sazonal e possui um curto período de colheita, concentrado entre setembro e novembro. Isso exige planejamento para produção e armazenamento suficientes para abastecer o restante do ano.
Além disso, ainda existem poucos estudos aprofundados sobre o uso comercial da mandiocaba. Tradicionalmente, ela é utilizada pelas comunidades para o preparo de bebidas ancestrais consumidas em mutirões de plantio e em manifestações culturais populares do interior paraense.
“Ela sempre esteve muito ligada às comunidades, aos mutirões, à alimentação coletiva. Era um alimento energético, barato e acessível. Nosso desafio foi justamente entender como transformar esse ingrediente em um produto de prateleira sem perder sua essência”, afirma.
Hoje, a Mearim Produtos Amazônicos se consolida como um exemplo de valorização da sociobiodiversidade amazônica, mostrando que tradição, ancestralidade e inovação podem caminhar juntas para fortalecer a economia local e preservar conhecimentos passados entre gerações.