O que está acontecendo na Amazônia? 27 de junho de 2026

Semana do Clima na Amazônia recebe patrocínio de mineradoras com histórico de condenações ambientais

A capital paraense sedia, entre os dias 29 de junho e 4 de julho de 2026, a 2ª edição da Semana do Clima da Amazônia. O encontro internacional, focado em debates sobre bioeconomia, proteção ecológica, transição energética e justiça climática, atrai a atenção pública não apenas pelas mais de 50 atividades programadas, mas também pela […]

A capital paraense sedia, entre os dias 29 de junho e 4 de julho de 2026, a 2ª edição da Semana do Clima da Amazônia. O encontro internacional, focado em debates sobre bioeconomia, proteção ecológica, transição energética e justiça climática, atrai a atenção pública não apenas pelas mais de 50 atividades programadas, mas também pela composição de seu financiamento.

O patrocínio master do evento é assinado pelas mineradoras Hydro, de capital norueguês, e Vale, multinacional brasileira, ambas com históricos recentes de condenações e litígios por crimes ambientais no próprio estado do Pará.

A escolha das fontes de financiamento repete a estratégia corporativa observada na COP30, realizada em novembro de 2025, na qual o setor mineral buscou reposicionar suas marcas como aliadas da descarbonização. Desta vez, os organizadores do encontro, que inclui o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e uma rede de secretarias estaduais e ONGs, buscam consolidar o monitoramento dos compromissos climáticos globais a partir do território amazônico.

O histórico jurídico das patrocinadoras no Pará

A presença das marcas no topo do painel de apoiadores contrasta com decisões recentes do Poder Judiciário:

  • Hydro-Alunorte: A companhia norueguesa foi condenada pela Justiça Federal ao pagamento de R$ 100 milhões devido ao transbordamento de uma bacia de depósito de rejeitos sólidos em Barcarena, ocorrido em abril de 2009. A sentença apontou a contaminação do Rio Murucupi por lama tóxica, a omissão no socorro a populações ribeirinhas e a obstrução da fiscalização do Ibama. No mesmo período, outra condenação de R$ 50 milhões foi imposta à empresa por danos à saúde coletiva causados pela emissão de gases poluentes e névoa tóxica na mesma região industrial.
  • Vale: Em 2025, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública contra a mineradora, a União e o Estado do Pará. O processo baseia-se em estudos da Universidade Federal do Pará (UFPA) que comprovaram a contaminação por metais pesados de indígenas da etnia Xikrin do Cateté. A investigação científica associou a presença dos contaminantes à operação de níquel da usina Onça Puma, subsidiária da Vale localizada na Serra dos Carajás, em Ourilândia do Norte. O MPF demanda o custeio integral de tratamento médico e exames de descontaminação para a comunidade afetada. A Vale também carrega o histórico do rompimento da barragem de Brumadinho (MG), em 2019, que resultou em 272 mortes.

Metas ecológicas e contraponto das empresas

A despeito dos passivos judiciais, a organização da Semana do Clima destaca o caráter aglutinador do evento. Segundo Lucimar Souza, diretora de Desenvolvimento Territorial do IPAM, o fórum atua para descentralizar o debate climático global, trazendo lideranças tradicionais, jovens e mulheres para o núcleo das tomadas de decisão. A edição anterior, realizada em 2025, reuniu cerca de 4 mil participantes em Belém.

Procurada pela reportagem do portal Carta Amazônia, a Hydro manifestou-se por meio de nota oficial, defendendo que o evento representa uma oportunidade legítima para o avanço das discussões sobre transição energética. A companhia informou que está investindo R$ 12,6 bilhões em projetos de reflorestamento, economia circular e eficiência tecnológica, o que permitiu reduzir em 33% suas emissões de CO2 na refinaria Alunorte em relação aos níveis de 2017.

Quanto ao processo de Barcarena, a Hydro declarou que recorreu da decisão da 9ª Vara Federal do Pará, alegando possuir laudos independentes que atestam a ausência de danos ao Rio Pará decorrentes do evento climático de 2009. A mineradora reiterou que suas operações cumprem as normas regulamentares vigentes.

A mineradora Vale foi consultada pela equipe de reportagem para apresentar seus argumentos sobre os temas levantados, mas não enviou posicionamento até o fechamento desta edição.

*Matéria realizada com informações do portal Cara Amazônia.

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