O que está acontecendo na Amazônia? 22 de junho de 2026

ICMBio apresenta evidências de desmatamento, garimpo e “lavagem” de gado na Terra do Meio, em operação que virou polêmica nas redes sociais

No coração da Amazônia, entre os rios Xingu e Iriri, uma verdadeira batalha pela preservação ambiental e econômica está em curso. A Estação Ecológica (ESEC) da Terra do Meio, uma das maiores e mais importantes unidades de conservação do Brasil, tornou-se o epicentro da Operação Pastos Nulos, deflagrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da […]

No coração da Amazônia, entre os rios Xingu e Iriri, uma verdadeira batalha pela preservação ambiental e econômica está em curso. A Estação Ecológica (ESEC) da Terra do Meio, uma das maiores e mais importantes unidades de conservação do Brasil, tornou-se o epicentro da Operação Pastos Nulos, deflagrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O alvo foi o desmatamento ilegal impulsionado pela criação de gado clandestino e o esquema de “lavagem” de rebanhos.

A operação, que teve início em 3 de junho, expõe um esquema sofisticado que vai muito além do dano ambiental: ameaça a própria economia pecuária do Pará. Durante uma coletiva de imprensa, a diretoria do ICMBio trouxe à tona detalhes sobre como grandes produtores utilizam áreas embargadas para “esquentar” gado, colocando em risco o status sanitário de todo o estado, provocando desmatamento e inclusive, usando o famigerado “agente laranja, uma mistura de herbicidas altamente tóxica, aplicados no campo para desmatamento .

O alerta sanitário e econômico

A constatação mais grave da operação até o momento foi sanitária: 100% do rebanho encontrado nas áreas embargadas não possuía registro ou controle sanitário.

Para um estado como o Pará, que é um gigante na produção e exportação de carne bovina, a presença de gado não rastreado é uma bomba-relógio. O presidente do ICMBio foi enfático durante a coletiva: “Isso aqui é um risco para a economia da pecuária paraense, é um risco para os produtores rurais. Por causa de um rebanho sem registro, acaba prejudicando toda a pecuária do estado e afeta a balança comercial brasileira”.

O esquema funciona através da chamada “lavagem de gado”. Invasores com alto poder econômico ocupam a unidade de conservação, desmatam, plantam pasto e criam gado sem registro. Esse rebanho clandestino é então “esquentado” em nome de terceiros, muitas vezes envolvendo pequenos colonos de boa-fé como laranjas. O objetivo é claro: driblar a fiscalização e inserir carne de área desmatada ilegalmente no mercado formal.

O avanço do desmatamento e a resposta do Estado

A Terra do Meio não recebeu esse nome por acaso. Localizada no interflúvio dos rios Xingu e Iriri, no município de São Félix do Xingu, o segundo maior do Brasil em extensão territorial, a ESEC é um escudo vital contra o avanço do desmatamento na região da Rodovia Transamazônica (BR-230).

No entanto, esse escudo tem sofrido rachaduras. O monitoramento do ICMBio revelou que, após uma queda entre 2023 e 2024, o desmatamento na Estação Ecológica dobrou em 2025. Esse aumento vertiginoso foi o estopim para a Operação Pastos Nulos.

A ação do ICMBio não é isolada, mas atende a duas diretrizes fundamentais. A retomada do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) pelo Governo Federal e a determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), através da ADPF 760, que obriga os órgãos ambientais a controlarem o desmatamento e protegerem as unidades de conservação. “Aqui não se trata de nenhuma ação de cunho ideológico ou político, mas sim o cumprimento estrito do nosso dever como gestores das unidades de conservação do Brasil”, ressaltou a liderança do Instituto.

Tensões, fake news e a narrativa do confronto

A operação, contudo, não tem ocorrido sem resistência. O ICMBio relatou estar sendo alvo de uma “ação orquestrada” com inverdades e fake news para descredibilizar o trabalho dos servidores. Em campo, a situação é tensa. Recentemente, vídeos circularam nas redes sociais mostrando confrontos verbais entre lideranças locais do agronegócio e fiscais do ICMBio. Além disso, há relatos de resistência física, como a interceptação de caminhões do Instituto por produtores para soltar gados apreendidos. Um vídeo viralizou nas redes sociais, em que o gado é liberado de um caminhão sob gritos e aplausos. 

O ICMBio esclarece que a operação mira especificamente as áreas que já estavam sob embargo. Ou seja, locais onde o desmatamento ilegal já havia sido constatado e autuado. O descumprimento do embargo para a criação de gado constitui uma nova e grave infração. Para tentar equilibrar a balança e não prejudicar pequenos colonos que ocupavam a área antes da criação da unidade em 2005, o Instituto tem adotado o princípio da razoabilidade. Em um dos casos citados na coletiva, de um morador local, que é conhecido como “Seu Pedro Coco”, o ICMBio permitiu a permanência de 100 cabeças de gado, o equivalente ao que seria permitido em um lote de 100 hectares em um assentamento regular, apreendendo apenas o excedente que configurava expansão ilegal recente.

O que está em jogo?

A Operação Pastos Nulos escancara o desafio de proteger a Amazônia em áreas de forte pressão econômica. De um lado, a necessidade urgente de conter o desmatamento e proteger a biodiversidade para mitigar as mudanças climáticas. Do outro, uma rede criminosa que utiliza a pecuária como fachada para a grilagem de terras, colocando em risco a reputação do agronegócio brasileiro no exterior e com uso de poder econômico para alcançar interesses políticos. Em vídeos nas redes sociais é possível ver títulos como “Governo e ICMBio estão roubando gado de produtores rurais.”

  • Compartilhar em:

Veja também