Ciência contra o desmatamento: CVACBA transforma biodiversidade da Amazônia em ativos de alto valor para a bioeconomia
No Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado neste 5 de junho, o debate sobre o futuro da Amazônia ganha respostas práticas a partir dos laboratórios da região. O Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA), vinculado à Universidade Federal do Pará (UFPA), vem atuando diretamente para transformar o potencial químico e biológico do […]
No Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado neste 5 de junho, o debate sobre o futuro da Amazônia ganha respostas práticas a partir dos laboratórios da região. O Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA), vinculado à Universidade Federal do Pará (UFPA), vem atuando diretamente para transformar o potencial químico e biológico do bioma em ativos de alto valor agregado.
Sob a coordenação do Prof. Dr. Fábio Moura, a equipe atua como uma ponte entre a biodiversidade e a inovação tecnológica. “Valorizar a biodiversidade, para nós, significa provar cientificamente que a floresta possui uma riqueza de moléculas bioativas que vale muito mais do que a sua exploração predatória“, afirma o coordenador.
Por meio do estudo de matrizes vegetais nativas, o CVACBA identifica moléculas e compostos de interesse estratégico para as indústrias de alimentos, cosméticos e fármacos. O professor Fábio Moura explica que a consolidação de uma bioeconomia real na Amazônia depende diretamente da capacidade de gerar riqueza sem destruição, utilizando recursos renováveis como frutos, sementes e folhas.
“Se as populações locais e o mercado percebem que a floresta em pé, gerando insumos biotecnológicos e funcionais, é mais lucrativa e estável no longo prazo do que a conversão da terra para pastagem ou monocultura, nós criamos um ‘escudo’ econômico contra o desmatamento“, destaca Moura.
Inovação no açaí, cacau e rastreabilidade tecnológica
Entre as principais frentes de trabalho recentes do CVACBA, destacam-se as linhas de pesquisa voltadas para a valorização integral do açaí e do cacau, baseadas em bioprocessos e nos princípios da economia circular. No setor cacaueiro, o centro desenvolve tecnologias para a classificação de qualidade e garantia de rastreabilidade das amêndoas da região, empregando técnicas avançadas e não destrutivas, como a espectroscopia no infravermelho próximo (NIR) e a quimiometria.
O centro também investiga o reaproveitamento de coprodutos e resíduos dessas cadeias para a extração de compostos de alto valor, como polifenóis e ácidos graxos essenciais. São soluções que, segundo o coordenador, “reduzem o impacto ambiental das agroindústrias locais e entregam novos ingredientes funcionais para o mercado“.
O modelo de atuação do centro preconiza que o conhecimento científico dialogue diretamente com o saber tradicional, promovendo uma efetiva transferência de tecnologia para quem vive na floresta. Os pesquisadores atuam junto a cooperativas e produtores locais para aprimorar os processos de pós-colheita e o controle de qualidade de óleos e frutos.
“O objetivo é fazer com que o produtor local não seja apenas um fornecedor de matéria-prima bruta, mas um coparticipe do processo de agregação de valor“, pontua o cientista.
Desafios estruturais e investimentos estratégicos
Apesar dos avanços, o coordenador ressalta que fazer ciência na região exige a superação diária de gargalos logísticos e de uma histórica assimetria de recursos. Para que a pesquisa básica se converta em soluções práticas de conservação ambiental, o CVACBA necessita de investimentos contínuos na modernização de seus laboratórios e na manutenção de equipamentos sofisticados, essenciais para acelerar o processo de transição da bancada científica para a escala industrial (scale-up).
Diante disso, arranjos que aproximem a academia do ecossistema de inovação são considerados vitais, o próprio CVACBA opera hoje como uma Unidade Embrapii UFPA-Bioeconomia, sob coordenação geral do prof. Dr. Hervé Rogez.
Ao projetar o futuro da região e o enfrentamento da crise climática global, o professor Fábio Moura reforça que a transição ecológica e a soberania territorial passam obrigatoriamente pelo financiamento da ciência produzida na Amazônia por cientistas locais.
“À sociedade, peço que valorize e defenda as universidades públicas e os centros de pesquisa da nossa região, pois trabalhamos diariamente na construção de soluções soberanas para o nosso território. Ao poder público, reforço que financiar a ciência amazônica não é gasto, é o investimento estratégico mais urgente e rentável que o Brasil pode fazer para garantir um futuro próspero, sustentável e socialmente justo para a Amazônia“, conclui.