“Árvore com tapume”: Morador rebate dona de fazenda e diz que pedágio era cobrado, mas dinheiro nunca foi repassado pra comunidade
Relatos de lideranças comunitárias e trabalhadores contradizem a versão da proprietária e apontam cobrança seletiva em estrada de acesso às comunidades do Céu e Caju-Una, no Marajó.
A polêmica de tapumes em volta de uma árvore morcegueira, em Soure, no Marajó, trouxe à tona outra questão controversa: a cobrança de taxa para acessar trecho da estrada estadual que dá acesso às comunidades do Caju-una e Céu. Turistas que chegam até a porteira da Fazenda Bom Jesus, se deparam com uma situação inusitada: precisam pagar uma taxa que varia entre 15 e 20 reais, dependendo, segundo relatos, do tipo de veículo que se aproxima. A prática é veementemente negada pela proprietária da fazenda, Eva Abufaiad, em nota enviada à imprensa. Mas depoimentos de lideranças, comentários nas redes sociais e mototaxistas desmentem a negação e revelam um conflito que vai além da cobrança: envolve restrição de acesso, hostilização de trabalhadores e promessas não cumpridas.
A cobrança seletiva na porteira
Teófilo Neves, presidente da comunidade do Céu, é categórico ao descrever a prática de cobrança. Segundo ele, a taxa não é fixa nem transparente: varia conforme a avaliação visual de quem passa pela porteira. “Por que eles cobram, dependendo da cara da pessoa. Se for um carro bom eles cobram uns 15, 20 reais”, relata Neves, descrevendo a arbitrariedade do sistema.
O líder comunitário explica que a cobrança afeta tanto turistas quanto moradores. Ele conta que a proprietária da fazenda justificava a cobrança como uma forma de arrecadação que seria revertida para as comunidades. No entanto, a comunidade nunca viu a cor desse dinheiro. “Minha relação com ela era boa, até que eu comecei a questionar com relação a essa passagem, e a gente foi conversar com o juíz. O que a gente queria era que não cobrasse de ninguém lá, e ela dizia que essa cobrança, ela ia distribuir com as comunidades, só que durante eu trabalhar como presidente da comunidade do Céu, ela nunca repassou nada desse dinheiro pra comunidade”, denuncia Neves.
A falta de transparência e de repasse do dinheiro arrecadado gerou desconfiança na comunidade. Neves relata que tudo que já foi feito pela fazenda, ocasionalmente, era o oferecimento de “presentes”. “O que ela fazia, era tempo de festa, ela dava um boi pra gente dividir na comunidade”, complementa Neves, indicando que as ações da fazendeira nunca se consolidaram com o repasse do dinheiro arrecadado na porteira da fazenda.
Neves também menciona que há preocupações legítimas com segurança na região, o que justificaria a existência de um portão. No entanto, a forma como a cobrança é feita e a hostilização de pessoas geram mais problemas do que soluções. A comunidade reconhece que a segurança é importante, mas questiona o método utilizado para garantir o controle de acesso. A cobrança arbitrária e a hostilização de trabalhadores e visitantes não parecem ser a melhor forma de resolver o problema. “Na realidade o que a gente queria, era um controle, mas não desse jeito. As comunidades vivem do turismo, e muita gente volta de lá da porteira quando descobre que tem que pagar uma taxa. E aí a comunidade inteira perde com isso”, afirma.
Depoimentos nas redes sociais confirmam cobrança
Nas redes sociais, existem relatos de pessoas que afirmam que de fato a cobrança é realizada. Confira!

Informações confusas e proibições
O incômodo com as fotografias feitas pelos turistas é um fato escancarado logo na entrada da porteira. Uma placa reforça o recado: “proibido fotos”. Essa placa se confunde com outra de “monitoramento da Polícia Militar”, ficando o condutor sem entender como um órgão do estado estaria fazendo o policiamento de uma área privada. Ao mesmo tempo, não existe nenhuma identificação na entrada sobre tratar-se de um trecho de estrada estadual.
Um mototaxista, que preferiu não se identificar, confirma que o valor cobrado na portaria dava direito ao turista descer o fotografar o espaço da fazenda. “Eles cobravam uma taxa de turista, pra bater foto. Da feita que a pessoa passava lá, ficava certo pra bater foto e cobrava lá na porteira dela”, relata o mototaxista.
O contexto: a árvore que virou polêmica
Para entender a cobrança de “pedágio”, é necessário compreender o contexto. A Fazenda Bom Jesus fica localizada na estrada que dá acesso às comunidades do Caju Una e do Céu. Nela existe uma árvore morcegueira, espécie comum na região que lembra um bonsai, que se tornou um ponto turístico inusitado nos últimos anos. A beleza singular da árvore atraía visitantes de longe, que viajam quilômetros para contemplar e fotografar aquela beleza natural. No início de 2026, a proprietária da fazenda mandou cercar a árvore com tapumes, bloqueando não apenas a possibilidade de fotografias, mas também a visão de quem passava pela estrada. A reportagem do Amazônia no Ar, apurou que, segundo relatos da própria proprietária da fazenda, os tapumes tem a finalidade de impedir que as pessoas fotografem a árvore.
A negação da Fazenda Bom Jesus
Em nota à imprensa, a assessoria jurídica da Sra. Eva Maria Daher Abufaiad nega veementemente as acusações de cobrança de pedágio. A nota afirma que a proprietária “jamais se posicionou ou ordenou a quaisquer funcionários do imóvel obstar o trânsito de pessoas que utilizam a Fazenda Bom Jesus para acessar as comunidades Céu e Caju-Una, independente de horário”.
“Com relação à acusação de cobrança de pedágio dos moradores das referidas comunidades para trânsito pela PA-154, a assessoria da parte informa que esta jamais foi uma prática adotada pelos proprietários do imóvel ou mesmo funcionários, à mando destes.” A nota da fazenda reconhece que a estrada PA-154 passa por espaço privado, mas argumenta que isso não torna a área “passível de acesso público sem qualquer necessidade de zelo por parte dos proprietários, haja vista a necessidade de resguardar o patrimônio, animais e a segurança dos funcionários e moradores da Fazenda”.
Quanto ao cercamento da árvore, a fazenda justifica a medida como temporária e necessária para proteção. “No que concerne à suposta proibição de fotos da árvore Morcegueira trata-se de informação inverídica. A instalação temporária de proteção sobre algumas árvores decorre da necessidade de cuidados no solo e raízes pelo pisoteamento dos bovinos que transitam no local, que tem gerado poças e desestabilização das árvores “, diz a nota enviada à imprensa.
O impacto na comunidade
Para Teófilo Neves, o conflito vai além da cobrança de pedágio. Ele relata que a situação gerou uma série de problemas, inclusive envolvendo autoridades federais. “Já aconteceu problema de pessoas doentes vindo do hospital e aconteceu problema com o rapaz da segurança, que não deixava passar. Até que uma autoridade federal chegou lá e queriam cobrar dele”, conta Neves.
O presidente comunitário também menciona que a questão chegou ao Ministério Público, que visitou o local, mas sem resolver o impasse. “Depois que a gente foi no Ministério público, eles visitaram todo o seguimento turístico, mas não foi resolvido nada. Inclusive aconteceu uma conversa ali dizendo até que ia cobrar de todo mundo, tanto dos visitantes como dos moradores”, relata.
Uma questão de direitos
O conflito envolve questões complexas sobre direitos de propriedade, direito de ir e vir, e acesso a recursos turísticos. A Fazenda Bom Jesus está parcialmente sobreposta a uma área da União, protegida pelo ICMBio, o que adiciona uma camada de complexidade legal à situação. A questão está na Justiça, mas enquanto não sai uma decisão, a situação permanece indefinida.
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