O que está acontecendo na Amazônia? 12 de agosto de 2025

Ministro Flávio Dino abre inquérito para investigar grupo suspeito de fraude em licitação da COP 30

Inquérito apura esquema de corrupção, fraudes em licitação e movimentações milionárias ligadas à preparação da COP 30 em Belém.

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de um inquérito para apurar suspeitas de organização criminosa no Pará envolvendo policiais, crimes eleitorais e corrupção relacionados a uma licitação de R$ 142 milhões para obras da COP 30, que será realizada em Belém.

Investigação e principais suspeitos

A investigação foi solicitada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, em fevereiro de 2025, e teve início em março. Segundo a PGR, o deputado federal Antônio Doido (MDB-PA), que possui foro privilegiado, é apontado como líder do esquema.

Além do parlamentar, outras 11 pessoas estão na mira das apurações, incluindo o secretário de Obras Públicas do Pará, Benedito Ruy Cabral, e o coronel da Polícia Militar Francisco de Assis Galhardo do Vale, que seria segurança de Doido.

O inquérito corre em sigilo, mas documentos obtidos pela imprensa indicam que o esquema envolve duas empresas ligadas ao deputado: a J.A Construcons Civil Ltda, registrada em nome da esposa de Doido, Andrea Dantas, e a JAC Engenharia Ltda, formalmente de Geremias Hungria, funcionário de uma fazenda do parlamentar.

Obra da licitação e movimentações suspeitas

Em 2024, o governo do Pará abriu licitação para a obra da Perna Norte da rua da Marinha até o Canal do Bengui, considerada parte das melhorias para a COP 30. O consórcio formado pelas duas empresas apresentou proposta de R$ 142,3 milhões.

Na mesma data da habilitação do consórcio, 20 de setembro, o coronel Galhardo sacou R$ 6 milhões em um banco de Castanhal (PA) e tentou se reunir com o secretário de Obras, segundo mensagens interceptadas pela Polícia Federal.

Em outubro, Galhardo e Geremias Hungria foram presos em flagrante ao sacar quase R$ 5 milhões. A suspeita inicial era de que o dinheiro seria usado para compra de votos nas eleições municipais. As mensagens encontradas indicam comunicação frequente entre o coronel, o secretário de Obras e outros políticos.

Suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro

A PGR aponta indícios de crimes de corrupção ativa e passiva, além de fraudes em licitação e desvios de recursos públicos. Um relatório financeiro do Coaf revelou que Galhardo realizou 15 saques em 2023 e 2024, totalizando R$ 48,8 milhões, muitas vezes retirados em espécie, em sacolas ou sacos de lixo.

Além disso, a investigação mostra que o coronel coordenava uma rede de policiais militares para realizar segurança privada ao deputado Doido e auxiliar nas movimentações financeiras suspeitas.

Reação do governo do Pará e situação atual

Em janeiro de 2025, o governo estadual revogou a habilitação do Consórcio Perna Norte e cancelou o contrato, citando denúncias e a prisão do sócio-administrador Geremias Hungria. As empresas investigadas não receberam pagamentos pela obra.

Em nota, enviada para o BT Amazônia, a Secretaria de Obras do Pará negou pagamentos às empresas ligadas ao deputado e afirmou que o secretário Benedito Ruy Cabral não possui qualquer envolvimento com as investigações ou benefícios indevidos.

Confira a nota na Integra:

“O Governo do Estado do Pará esclarece que as empresas J.A Construcons e JAC Engenharia firmaram contratos com a Administração Estadual exclusivamente por meio de licitações regulares, em conformidade com a legislação vigente e os princípios constitucionais, com toda a documentação disponível nos portais oficiais de compras públicas.

O processo Concorrência nº 90014/2024 foi formalmente revogado em dezembro de 2024, por razões estritamente técnicas, devidamente fundamentadas e publicadas nos canais oficiais, conforme determina a Lei 14.133/2021. Embora tenha sido avaliado nos estudos iniciais que mapearam demandas de infraestrutura para a COP 30, o projeto não integrou o pacote final de obras do evento e, portanto, não está relacionado a serviços ou investimentos vinculados à conferência.

No exercício de suas funções, o Secretário-Executivo da SEOP, Benedito Ruy Cabral, jamais celebrou contratos ou manteve relações comerciais com integrantes da Polícia Militar do Pará, não participou de reuniões com o policial mencionado, não recebeu bens, valores ou benefícios e não foi notificado sobre investigação que o envolva. Sua interlocução com órgãos públicos e representantes da sociedade civil ocorre exclusivamente para atender ao interesse público, sem qualquer vínculo de natureza privada.

O Governo do Pará reitera que não foi acionado ou notificado sobre qualquer procedimento investigativo relacionado às contratações citadas e que, caso isso ocorra, adotará imediatamente as medidas cabíveis e apresentará todas as informações necessárias para a apuração dos fatos, reafirmando seu compromisso com a probidade e a transparência na gestão pública.”

Até o momento, nem o deputado Antônio Doido nem a Polícia Militar do Pará se manifestaram oficialmente sobre o caso.


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