World Climate Summit: financiamento e ações coletivas pela preservação da Amazônia
O climatologista Carlos Nobre e Flora Bitancourt, Presidente da World Climate Foundation
A cidade de São Paulo tornou-se o epicentro das discussões climáticas da América Latina na semana passada, durante a São Paulo Climate Week 2026. Na programação do evento, a World Climate Foundation (WCF) promoveu o World Climate Summit, evento focado em uma das missões mais difíceis da atualidade: fazer com que o dinheiro do capital global chegue, de fato, a quem preserva a Amazônia.

O encontro reuniu investidores, líderes políticos e a sociedade civil no MASP (Museu de Arte de São Paulo) , servindo como uma análise do cenário pós-COP 30, que aconteceu em Belém, em novembro de 2025. Mas, para além das cifras bilionárias discutidas em painéis de blended finance (financiamento misto), o que chamou a atenção foi o choque de realidades e os alertas urgentes sobre o futuro político e ambiental do Brasil.
TRADUZINDO O CAPITAL // A MISSÃO DA WCF
Flora Bitancourt, presidente da World Climate Foundation no Brasil, resumiu o desafio de conectar as comunidades tradicionais da Amazônia com os investidores globais. “É algo que a gente construiu muito durante a COP 30 em Belém. A gente foi, eu pessoalmente fui mais de 11 vezes pra Belém para organizar nossas ações. E parte disso foi a escuta do território”, explicou Flora em entrevista durante o evento.

A presidente da Fundação falou sobre a importância da escuta das comunidades. “Então a gente foi a comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas, periféricas, não só de Belém, mas da Amazônia, pra escutar quais eram as pautas que eles queriam trazer e como que uma plataforma global como a World Climate Foundation poderia facilitar isso”, afirmou Flora.
O grande gargalo, segundo ela, é a implementação. “Sem dúvida, nosso networking de investidores globais quer mobilizar esse capital até a ponta, porque isso é implementação, você conseguir fazer o dinheiro chegar até a ponta”, destacou. “Quando a gente fala, por exemplo, sobre agricultura e como que o capital chega no pequeno agricultor para fazer uma agrofloresta, para fazer uma agricultura regenerativa. Existem vários mecanismos, só que essa linguagem é completamente diferente”, avalia.
O ALERTA DE CRISE CLIMÁTICA COM O SUPER EL NIÑO

Enquanto os investidores debatiam mecanismos financeiros, o climatologista Carlos Nobre, reforçou a importância da consciência coletiva de cuidarmos da Amazônia frente às ameaças de perda de vegetação neste segundo semestre. O pesquisador que, há anos, alerta sobre o “ponto de não retorno” da Amazônia , fez um apelo dramático sobre a situação atual da floresta e a responsabilidade política.
Nobre alertou para o risco de “trazer uma seca muito séria para a Amazônia” e o consequente “risco de incêndio”. Em sua fala, ele propôs uma medida drástica, embora reconheça sua dificuldade: proibir o uso do fogo pelos agricultores. “Eu sei que isso não é fácil, mas então a mensagem final: vamos realmente eleger muito melhores políticos na nossa eleição agora de outubro”, cravou o pesquisador, conectando diretamente a crise climática às urnas.
O alerta de Nobre ganha ainda mais peso quando cruzado com estudos recentes. Pesquisas publicadas na revista Nature indicam que um desmatamento que passe de 22% da área do bioma (hoje estamos em cerca de 18%), combinado com o aquecimento global, pode levar a uma transição quase sistêmica da floresta amazônica .
“ALDEAR A POLÍTICA”

Sônia Guajajara, deputada federal e ex-ministra dos Povos Indígenas, aproveitou o espaço para detalhar a estratégia do movimento indígena para as eleições de 2026: o projeto “Aldear a Política” . “Estamos com um processo de formação para definir as nossas candidaturas indígenas. Nós queremos reeleger as nossas indígenas parlamentares e também aumentar o nosso mandato no Congresso Nacional, assim como eleger deputadas estaduais”, afirmou Sônia.
A meta é ambiciosa e histórica. “Com mais de 40 candidaturas indígenas em todo o Brasil, fortalecendo um projeto, e a partir de São Paulo, aqui, estamos projetando essa iniciativa como estratégia de trazer indígenas para esse processo eleitoral”, explicou.
O movimento busca superar o que Célia Xakriabá (PSOL-MG) chama de “racismo da ausência” . Na atual legislatura, apenas cinco deputados federais se autodeclaram indígenas (menos de 1% do Congresso) . A estratégia agora é não apenas eleger, mas reeleger essas lideranças, quebrando um tabu histórico na política brasileira.