Coluna Marcelo Damaso 13 de junho de 2026

Ser indie ou não ser

A primeira vez que me deparei com a palavra “indie” foi em 1999, quando participava das famigeradas listas de discussão por email. Morava em Santos e estava descobrindo um mundo novo. A lista em questão era a Poplist, cheio de palestrinha, jornalistas musicais e moleques enjoados como eu, aos 21 anos (todo mundo era as […]

A primeira vez que me deparei com a palavra “indie” foi em 1999, quando participava das famigeradas listas de discussão por email. Morava em Santos e estava descobrindo um mundo novo. A lista em questão era a Poplist, cheio de palestrinha, jornalistas musicais e moleques enjoados como eu, aos 21 anos (todo mundo era as três coisas). Era opinião pra lá, opinião pra cá, e eu meti o bedelho em alguma conversa sobre as bandas que gostava. Foi então que um engraçadinho me chamou de indie. Ah, fdp! Eu retruquei falando que ele tava inventando aquele termo, aí ele mandou logo um artigo que explicava o que era. E foi meu primeiro vexame virtual.

Indie é a abreviação de independente. No entanto, o termo é usado estritamente relacionado ao rock, dentro de suas centenas de subgêneros, outrora conhecido como rock alternativo. O Indie raiz (lá dos anos 1990 e início dos 00) é a pessoa que escuta apenas bandas gringas como Sonic Youth, Pixies, My Bloody Valentine, Weezer, Smashing Pumpkins e Placebo, para citar algumas. O raiz MESMO não curte música brasileira, aprecia melodias e letras de músicas que não fazem exatamente parte de seu cotidiano, seja no Brasil, China ou Groelândia.

Claro que dentro desse parâmetros, ser chamado de indie, naquela época, era uma tremenda ofensa. Ninguém quer ser visto como um ser restrito incapaz de compreender seu mundo real e vivendo em um universo paralelo. Mas acho que hoje em dia, os Indies dos anos 1990 cresceram, tiveram filhos, trabalhos, responsabilidades e entenderam que o mundo é diverso. Os Indies jovens de hoje em dia já vem com o chip da diversidade, gostam de música brasileira, regional, mas não deixam de ficar ligados em novidades, mesmo virando quase um padrão cair nas armadilhas do hype e ficar falando das mesmas bandas.

Mas é engraçado como tem gente que ainda usa o termo “indie” pra tentar diminuir o outro. “Ah, mas tu é indie, né?”. “Esse festival é muito indie”. Mas a real é que isso não ofende mais ninguém. Daí veio o termo “indie véio”, que é justamente quem paga suas contas e não tá nem aí para a alcunha. Ser chamado de “Roqueiro” também já é demais, aí pode rolar porrada.

Gostar de rock cantado em inglês é mais um dos prazeres de quem coleciona música, mas mantém a mente aberta. O indie que se garante tem todos os discos do Wilco e Flaming Lips, mas também dos Novos Baianos, Jards Macalé e Gal Costa. Envelhecer sem perder a ternura das letras de tristeza e contemplação de um dia frio em Glasgow ou no calor da Lapa.

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