Não se Edmotte
“Bom gosto musical”, taí um termo fajuto que pode ser proferido não só por quem não faz auto-crítica, mas acha que sua geração representou o melhor da música, que ainda se importa com críticos musicais (a meia dúzia que ainda existe) e que tem opinião regulada por quem acha que determina o que é bom […]
“Bom gosto musical”, taí um termo fajuto que pode ser proferido não só por quem não faz auto-crítica, mas acha que sua geração representou o melhor da música, que ainda se importa com críticos musicais (a meia dúzia que ainda existe) e que tem opinião regulada por quem acha que determina o que é bom e o que não é.
Músicos em declínio, frustrados, jornalistas e artistas frustrados (ao mesmo tempo), críticos musicais com acidez aguada e sem talento pro humor e, especialmente, gente de berço que “entendeu” de música muito cedo e despreza tanto o mainstream quanto o underground.
Parece que estou descrevendo o Ed Motta, né? Também. Mas se estivesse falando só dele, citaria também o fato de que erudição e vinho são ingredientes para arrogância e a formação de um caráter ruim. Fora o fato de que a carência fica ainda mais explícita quando o que chama a atenção são episódios de pura vergonha alheia, o que evidencia a discografia fraca que ninguém se importa.
Me dei conta desse tema quando me vi na Casa da Luna, no meu projeto Very Peso, tocando vinis de jazz, MPB marginal, música africana, libanesa etc. Enebriado pela lombra, pensei “que legal poder tocar essas coisas de alto nível”, e a autocorreção veio logo em seguida quando lembrei do menino tolo jogando a cadeira. Não, peraí, não posso chamar isso de alto nível. Não posso diminuir o nível da música pop, óbvia, pulsante. Estou me Edmottando!
A discussão em torno de listas de melhores, prêmios, curadoria, programação de festival e tudo o que envolve o ato de “escolher música” passa pelo gosto pessoal de alguém. E o ponto de convergência é a velha máxima de que música boa é relativa.
Já me vi errando muitas vezes, mas a graça de envelhecer ouvindo música todos os dias é saber que quanto mais se conhece bandas, artistas e gêneros musicais, mais é preciso manter a cabeça aberta. Melhor se gabar pelo mau gosto musical do que pelo bom gosto. Erudição é a puta que pariu. Beijos.