O que está acontecendo na Amazônia? 20 de abril de 2026

Inundação em Belém expõe efeito de mudanças climáticas globais e falhas na drenagem urbana, aponta especialista

A forte inundação que atingiu Belém no último domingo (19), após um temporal com cerca de 152 mm de chuva em 24 horas, evidencia não apenas a intensidade do fenômeno climático, mas também os impactos crescentes das mudanças climáticas globais sobre a capital paraense. A avaliação é do doutor em saneamento ambiental e recursos hídricos, […]

A forte inundação que atingiu Belém no último domingo (19), após um temporal com cerca de 152 mm de chuva em 24 horas, evidencia não apenas a intensidade do fenômeno climático, mas também os impactos crescentes das mudanças climáticas globais sobre a capital paraense. A avaliação é do doutor em saneamento ambiental e recursos hídricos, Rodrigo Rodrigues, em entrevista ao Amazônia no Ar.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o volume registrado corresponde a aproximadamente 33% da média climatológica de abril em Belém, estimada em 465 mm. Apesar de inferior ao recorde histórico de 200,5 mm registrado em 2005, o evento de 2026 está entre os mais intensos das últimas duas décadas, com impactos urbanos considerados severos.

A explicação para a gravidade da inundação vai além do volume total de chuva. Segundo Rodrigues, a concentração da precipitação em poucas horas, aliada à alta intensidade (mm/h), fez com que o sistema de drenagem urbana fosse rapidamente sobrecarregado. “Eventos mais curtos e intensos tendem a provocar alagamentos mais críticos do que chuvas volumosas distribuídas ao longo do tempo”, destacou.

Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apontam que bairros como Marco e Pedreira, em Belém, além de áreas do Centro e Distrito Industrial de Ananindeua, registraram acumulados superiores a 100 mm em curtos intervalos, revelando uma distribuição desigual, porém extrema, da chuva.

O fenômeno foi impulsionado por uma combinação de fatores atmosféricos. A Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), principal sistema de chuvas da região Norte, estava posicionada mais ao sul do que o habitual, atuando diretamente sobre o Pará. Ao mesmo tempo, o aquecimento anômalo das águas do Atlântico Tropical Norte intensificou a evaporação e aumentou a quantidade de umidade disponível na atmosfera, favorecendo a formação de nuvens de grande desenvolvimento vertical.

Outro fator determinante para a inundação foi a coincidência entre o pico da chuva e a maré alta. No dia 19, a preamar ultrapassou 3,80 metros por volta do meio-dia, dificultando o escoamento da água. Em uma cidade com áreas ao nível do mar, como Belém, o fenômeno pode provocar o refluxo das águas dos rios para os canais urbanos, agravando os alagamentos.

Rodrigues ressalta que eventos extremos de precipitação — acima de 50 mm ou 100 mm em 24 horas — têm se tornado mais frequentes na Região Metropolitana de Belém. Esse cenário está diretamente relacionado às mudanças climáticas globais, que aumentam a temperatura média e, consequentemente, a capacidade da atmosfera de reter vapor d’água. “Com mais umidade disponível, as chuvas tendem a ser mais intensas e concentradas”, explicou.

Nos últimos 60 anos, a temperatura média em Belém subiu cerca de 2°C, reforçando essa tendência. A combinação entre o aquecimento global, o Atlântico Tropical mais quente e a possível transição climática para condições de La Niña cria um ambiente favorável para um “inverno amazônico” mais rigoroso em 2026.

A previsão do INMET indica continuidade das instabilidades ao longo da semana, com céu encoberto, pancadas de chuva e trovoadas isoladas. Alertas de perigo (nível laranja) seguem ativos, enquanto as marés permanecem elevadas, acima de 3,4 metros, mantendo o risco de novas inundações, especialmente se coincidirem com os horários de chuva.

Apesar dos avanços no sistema de alerta via SMS da Defesa Civil, especialistas apontam que ainda há desafios na previsão detalhada por bairros. A falta de uma rede mais densa de radares e pluviômetros limita a capacidade de antecipar, com precisão, quais áreas serão mais afetadas.

Diante do cenário, a orientação das autoridades é que a população evite áreas alagadas e acompanhe os alertas oficiais, enquanto o poder público enfrenta o desafio de adaptar a infraestrutura urbana a uma realidade climática cada vez mais extrema.

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