O que está acontecendo na Amazônia? 23 de abril de 2026

Tempestades mais intensas”: Meteorologista explica por que o inverno de 2026 é um alerta para Belém

O evento extremo de precipitação que atingiu a Grande Belém entre os dias 18 e 19 de abril de 2026 não foi apenas mais uma “chuva de tarde”. Com um acumulado de 152 mm registrado em apenas 24 horas, a capital paraense recebeu o equivalente a 33% de toda a média esperada para o mês […]

O evento extremo de precipitação que atingiu a Grande Belém entre os dias 18 e 19 de abril de 2026 não foi apenas mais uma “chuva de tarde”. Com um acumulado de 152 mm registrado em apenas 24 horas, a capital paraense recebeu o equivalente a 33% de toda a média esperada para o mês de abril (465 mm). Os picos de inundação concentraram-se nos bairros do Marco e Pedreira, em Belém, e no Centro e Distrito Industrial, em Ananindeua.

Segundo o meteorologista Cleyton Souza, a tempestade teve origem em uma configuração clássica, porém intensificada por fatores oceânicos. “A Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) se posicionou mais ao sul do que o normal, atuando diretamente sobre a costa do Pará. Ao mesmo tempo, o Atlântico Tropical Norte estava anormalmente aquecido, injetando uma quantidade massiva de umidade na atmosfera”, explicou o especialista em relatório técnico enviado à jornalista Ádria Medeiros.

Intensidade e maré alta: A combinação destrutiva

O relatório aponta que o estrago causado pelos 152 mm superou eventos com volumes maiores no passado devido à taxa de precipitação. Souza esclarece que a velocidade com que a água caiu foi superior à capacidade de absorção da cidade: “Eventos com alta taxa de precipitação em curtos intervalos tendem a exceder rapidamente a capacidade de escoamento, provocando alagamentos mais severos do que chuvas mais volumosas distribuídas ao longo de períodos maiores.”

Somado a isso, Belém enfrentou um obstáculo natural crítico: a maré. No momento do pico da chuva, a preamar atingiu mais de 3,80 metros, impedindo que os canais escoassem a água da chuva para os rios, resultando em transbordamentos imediatos em vias principais.

Mudanças climáticas e a transição para La Niña

O rigor deste “inverno amazônico” também é um reflexo do aquecimento global e da transição dos fenômenos climáticos El Niño para La Niña. De acordo com o meteorologista, uma atmosfera mais quente, Belém registrou um aumento de cerca de 2°C na temperatura média nos últimos anos, funciona como uma esponja que retém mais vapor d’água.

“Quando as condições para a chuva se formam, há mais ‘combustível’ disponível, resultando em tempestades mais intensas e concentradas”, alerta Souza.

Gargalo tecnológico: A falta de radares

Um dos pontos mais críticos destacados no relatório é a dificuldade de previsão em “microescala”. Embora a Defesa Civil utilize sistemas de alerta via SMS (40199), o especialista ressalta que o Pará ainda carece de radares meteorológicos de alta precisão que permitam avisar a população, bairro a bairro, sobre a chegada de tempestades severas. Sem essa infraestrutura, os alertas tornam-se genéricos, dificultando a prevenção de danos materiais e riscos à vida.

Previsão: alerta laranja continua

Para os próximos dias, o cenário ainda exige cautela. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) mantém o Alerta Laranja para a região. A previsão para a semana de 21 a 27 de abril indica a continuidade da instabilidade, com temperaturas variando entre 24°C e 33°C e alta probabilidade de novos eventos isolados de forte intensidade.

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