Por que o anfitrião da COP 30, Helder Barbalho, perdeu a vergonha de tocar o berrante pra boiada passar?
O verniz ambientalista do governo Helder Barbalho parece estar descascando sob a forte incidência do Sol amazônico. Vem entender o que acontece na corrida (nada silenciosa) pelo apoio do agronegócio no Pará.
Parece que foi ontem, não é mesmo? O governador do Pará, Helder Barbalho, nosso futuro anfitrião da COP 30, posava de guardião da floresta. Discursos bem elaborados e frases prontas sobre a “floresta em pé”, promessas de um futuro verde… Ah, bons tempos! Mas, o verniz ambientalista parece estar descascando sob a forte incidência do Sol amazônico. Mas calma, existe um motivo pra essa metamorfose e a gente te explica.

O mesmo Helder, sem a menor timidez, surge como o mais novo garoto-propaganda do agronegócio. Sim, ele mesmo, o setor campeão em transformar nossa biodiversidade em pasto e soja, responsável por uma fatia nada modesta do desmatamento (estudos como o do MapBiomas apontam que a agropecuária responde por mais de 90% da supressão de vegetação nativa na Amazônia). E o governador? Bem, ele não só abraça a causa como comemora, com entusiasmo digno de final de campeonato, projetos que são verdadeiros escárnios ambientais. Um exemplo? A recente celebração da licença para dinamitar o Pedral do Lourenço, aquela formação rochosa no Rio Tocantins que, veja que coincidência, atrapalha a passagem das barcaças abarrotadas de grãos do agro. Uma obra federal, do DNIT, mas que Helder fez questão de puxar para si a paternidade. Afinal, popularidade com o setor que manda (e desmata) nunca é demais, certo?
Mas não sejamos ingênuos. Helder Barbalho, astuto como é, sabe perfeitamente o peso negativo que essa declaração de amor ao berrante tem para sua imagem de anfitrião climático. Então, por que essa pressa em vestir a camisa do agro, justo agora? A resposta, caros leitores e leitoras preocupados com o futuro da nossa Amazônia, não está em Brasília ou em fóruns internacionais, mas ali mesmo, na esquina da política paraense, mais precisamente na ameaça que atende pelo nome de “eleições 2026 para governo do estado”.

De um lado temos a dinastia Barbalho, com cargos estrategicamente distribuídos entre família e aliados. Do outro, emerge a figura de Daniel Santos, o prefeito de Ananindeua, que já desponta como a principal pedra no sapato barbalhista para 2026. E quem surge como o fiel escudeiro de Daniel nessa empreitada? Ninguém menos que Zequinha Marinho, o senador que parece ter como missão pessoal transformar em realidade todos os pesadelos dos ambientalistas. Pense em Ferrogrão, aquela ferrovia que rasga áreas protegidas, como terras indígenas, para escoar grãos. Ele apoia! Pense na exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Ele apoia! É o pacote completo do antiambientalismo que tanto tememos.

Daniel Santos, que de bobo não tem nada, percebeu a brecha. Isolado politicamente após romper com seu antigo padrinho politico, o próprio Helder (sim, eles já foram bestfriends) ele buscou refúgio no PSB de Geraldo Alckmin e, numa jogada de mestre, aproximou-se do novo comando nacional do partido, garantindo musculatura política. A jogada deu tão certo, que Daniel agora, está próximo do novo presidente nacional da sigla, João Campos, que, segundo o blog “Opinião em Pauta”, ligou pessoalmente para Daniel para dar a notícia de que ele (Daniel) foi escolhido para compor a nova direção nacional do PSB.

Eis o cálculo de Helder: com Daniel de mãos dadas com Zequinha, farejando o mesmo rebanho eleitoral, o governador precisa se fazer presente junto do agro. No mês passado, Helder foi em comitiva para Brasília conversar com Gleisi Hoffmann, e pedir o desbloqueio de áreas de “glebas federais” no Pará, que atingiu produtores rurais em uma mega operação do Ibama, que ficou conhecida como “embargão”. Helder, defendendo os interesses dos produtores, venceu a batalha, e comemorou nas suas redes sociais. “Onde for terra indígena comprovada com estudo antropológico se respeita a política indigenista e onde for terra que tem proprietário, cidades, áreas urbanas, que nós possamos ter o equilíbrio” afirmou.

A pergunta que fica, enquanto Belém se prepara para receber o mundo e discutir o futuro do planeta, é dolorosamente irônica: nessa briga pelo apoio do agronegócio, quem defende os interesses da Amazônia? Resposta fácil. Engolir é que é difícil.
Opinião editorial: este texto reflete a opinião do veículo Amazônia no Ar