PCC e Comando Vermelho intensificam uso de aeronaves para tráfico na Amazônia
Facções do crime recorrem a aviões e helicópteros para driblar domínio do tráfico fluvial e expandir rotas de cocaína e skunk, aponta relatório da Secretaria de Segurança do Amazonas
O Primeiro Comando da Capital (PCC) e facções menores têm aumentado o uso de aeronaves para transportar drogas na Amazônia, em especial cocaína e skunk, espécie de supermaconha. Segundo autoridades, a estratégia surge como alternativa ao transporte fluvial dominado pelo Comando Vermelho (CV). As informações são do Jornal Estadão.
Relatórios de inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas, obtidos pela reportagem do jornal Estadão, identificam quase 200 pistas clandestinas espalhadas pelo Estado, principalmente em áreas de mata próximas a Manaus. O documento aponta que essas pistas facilitam atividades ilegais como tráfico de drogas, garimpo, contrabando de armas e desmatamento.
O secretário de Segurança Pública do Amazonas, Marcus Vinicius de Almeida, afirma que o CV domina o transporte pelos rios, enquanto o PCC busca se expandir utilizando aeronaves. “Temos observado grande movimentação de helicópteros em pontos estratégicos, inclusive em áreas de difícil fiscalização”, disse.
Operações e apreensões recentes
Desde 2023, pelo menos dez aeronaves utilizadas por facções foram apreendidas no Amazonas, incluindo dois helicópteros entre agosto e setembro de 2024, em operações conjuntas da Polícia Federal, Força Aérea Brasileira (FAB) e polícias estaduais.
Em uma operação em Alvarães, um helicóptero Robinson R44 Clipper I foi encontrado junto a um acampamento com gerador, antena de internet via satélite, energia solar e suprimentos. Três pessoas foram presas.
Em outra ação, foram apreendidos 238 quilos de skunk após abordagem de um helicóptero sem plano de voo perto de Rio Preto da Eva. Em março, 250 quilos de drogas foram localizados em Careiro, provenientes do Peru.
Além disso, a polícia identificou três pistas clandestinas, reforçando a sofisticação logística do tráfico aéreo na região.
Impacto ambiental e rota internacional
O uso de aeronaves para o tráfico contribui para a degradação da Amazônia, com aumento do desmatamento e do garimpo em áreas protegidas. Relatórios da Secretaria apontam que as pistas clandestinas são construídas de forma irregular, muitas vezes em locais remotos, dificultando a fiscalização.
Os carregamentos não apenas abastecem o mercado local, mas também são vendidos internacionalmente. Estimativas apontam que um quilo de cocaína, adquirido por cerca de US$ 1 mil em países vizinhos, pode chegar a US$ 50 mil em mercados europeus, como Bélgica e Holanda.
Estratégia das facções e expansão do PCC
Investigações indicam que o PCC tem buscado estabelecer presença em pontos estratégicos, como Coari, e criar uma rede para transporte aéreo, competindo com a infraestrutura do CV.
“Geralmente, os criminosos navegam mais à noite e dependem de apoio de comunidades ribeirinhas para transporte pelos rios”, explica Marcus Vinicius. Apesar do avanço do PCC, o CV mantém domínio em rotas fluviais como o Solimões.
O governo estadual mantém quatro bases arpão em pontos estratégicos da malha fluvial, auxiliando na fiscalização de embarcações. No entanto, o combate a aeronaves ainda depende de denúncias e informações de inteligência.
Condições ambientais e adaptação do tráfico
O uso crescente de meios aéreos também está ligado às condições climáticas. Secas intensas entre 2023 e 2024 dificultaram o transporte fluvial, levando criminosos a optar por aeronaves. Especialistas apontam que a alternância entre secas severas e cheias acima da média deve se tornar mais frequente com as mudanças climáticas, mantendo a rota aérea como opção estratégica.
“Iniciaram por conta da estiagem, mas perceberam que o transporte aéreo é mais rápido e menos arriscado”, afirma o major Francisco Camurça, coordenador de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas.
Contexto internacional e consórcios do crime
As investigações também mostram que os carregamentos do PCC vêm principalmente do Peru, enquanto o CV mantém relações com fornecedores da Colômbia. Muitas vezes, o transporte é feito por “consórcios” internacionais, com logística definida em cidades de tríplice fronteira, como Letícia, na Colômbia.
O uso de aeronaves permite que os grupos operem longe da fiscalização, realizando voos baixos para despistar radares e combinando diferentes modais até o destino final das drogas, tanto no Brasil quanto no exterior.
Com informações de do jornal Estadão e reportagens do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.