O que está acontecendo na Amazônia? 17 de novembro de 2025

Indígena Guarani Kaiowá é assassinado em ataque armado no MS; caso reacende alerta sobre violência fundiária durante a COP30

Comunidade denuncia ação de pistoleiros na Terra Indígena Iguatemipeguá I; quatro pessoas ficaram feridas e investigações seguem com PF, Funai e Ministério dos Povos Indígenas

Um ataque armado ocorrido na madrugada deste último domingo (16) na Terra Indígena Iguatemipeguá I, em Iguatemi, no sul de Mato Grosso do Sul, resultou na morte do indígena Vicente Fernandes Vilhalva, do povo Guarani Kaiowá, e deixou outros quatro feridos, entre eles adolescentes e uma mulher.

Segundo relatos enviados à Funai e reunidos pelo Cimi, aproximadamente 20 homens armados cercaram a retomada Pyelito Kue, destruíram barracos e efetuaram disparos prolongados contra a comunidade. Os indígenas afirmam que os agressores tentaram levar o corpo de Vicente, mas foram impedidos.

A Funai classificou o assassinato como “inaceitável” e afirmou que este é o quarto episódio de violência semelhante na região desde 3 de novembro.

Conflitos fundiários e disputa por território

A retomada de Pyelito Kue fica dentro da TI Iguatemipeguá I, cujo relatório de identificação foi publicado pela Funai em 2013, delimitando cerca de 41,5 mil hectares. A comunidade afirma esperar há quase 40 anos pela conclusão do processo demarcatório.

Desde outubro, indígenas reocuparam partes das Fazendas Cachoeira e Cambará — áreas consideradas por eles como tradicionais. A região vive tensão constante entre fazendeiros e comunidades Guarani e Kaiowá, agravada por denúncias de:

  • pulverização de agrotóxicos próxima às aldeias;
  • ameaças de pistoleiros;
  • invasões anteriores registradas ao longo de novembro.

Investigações e ações do governo

PF, Força Nacional e órgãos federais atuam na área

A Polícia Federal abriu investigação ainda na manhã de domingo, realizando diligências e ouvindo testemunhas. A Força Nacional também foi enviada para reforçar a segurança na região.

O Ministério dos Povos Indígenas e a Funai acompanham o caso. A ministra Sônia Guajajara afirmou que o ataque ocorreu em um contexto de defesa territorial e reforçou a necessidade de concluir processos de demarcação para reduzir a violência.

Segundo o governo estadual, além da morte do indígena, um funcionário de uma fazenda também teria morrido, informação que segue em apuração. Um indígena ferido foi detido e levado à PF — circunstâncias ainda não esclarecidas.

Desde 3 de novembro, oito pessoas ficaram feridas em diferentes ataques relacionados à disputa fundiária na região.

O que diz o Ministério dos Povos Indígenas sobre o caso

Em nota, o Ministério dos Povos Indígenas lamentou a morte do indígena Guarani Kaiowá durante ataque armado na Terra Indígena Iguatemipeguá I e afirmou que o caso ocorre em meio à luta pela defesa territorial. A pasta acionou a PF, a Força Nacional e outros órgãos para garantir segurança, investigar o crime e acompanhar os feridos.

Confira a nota do Ministério dos Povos Indígenas na íntegra.

Nota Oficial – Ministério dos Povos Indígenas

O Ministério dos Povos Indígenas manifesta profundo pesar pela morte do indígena Guarani Kaiowá Vicente Fernandes Vilhalva, ocorrida neste domingo (16) durante ataque armado contra a retomada Pyelito Kue, na Terra Indígena Iguatemipeguá I, no município de Iguatemi (MS).

Segundo informações reunidas junto à Funai, ao Cimi e à comunidade local, um grupo estimado em cerca de 20 homens armados invadiu o território nas primeiras horas da manhã, efetuou disparos e destruiu barracos. Outros quatro indígenas ficaram feridos por arma de fogo ou balas de borracha, entre eles adolescentes e uma mulher.

A comunidade relata que os agressores tentaram levar o corpo do indígena, o que foi impedido pelos próprios moradores, que também denunciaram o bloqueio do acesso à área e a destruição de uma ponte.

Este é o quarto episódio de violência grave registrado desde o dia 3 de novembro, em meio à intensificação dos conflitos fundiários envolvendo as retomadas Guarani e Kaiowá no sul do estado.

Equipes da Polícia Federal foram mobilizadas para investigar o ataque, realizar diligências e acompanhar a situação. A Força Nacional de Segurança também atua na região em apoio às ações federais.

Em 3 de novembro, foi instituído um Grupo de Trabalho Técnico (GTT) interministerial, composto pelo MPI, MDA e MGI, com a finalidade de reunir informações e contribuir com medidas de mediação e resolução dos conflitos.

A morte de mais um indígena Guarani Kaiowá ocorre no mesmo momento em que o mundo discute na COP30, em Belém (PA), a importância dos povos indígenas para a mitigação climática — reforçando que não há trégua na perseguição aos defensores do clima no Brasil.

O Ministério manifesta solidariedade à comunidade de Pyelito Kue, acompanha o caso e seguirá empenhado para que as medidas de proteção, investigação e responsabilização sejam tomadas com a urgência necessária.


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