O que está acontecendo na Amazônia? 4 de dezembro de 2025

Exposição ‘Amazônia Queer’ lança olhar sobre corpos, memória e diversidade na Amazônia

Mostra do artista paraense Henrique Montagne reúne fotografia, desenho e texto para conectar a história do indígena Tibira, primeiro caso de morte por homofobia no Brasil, a corpos dissidentes que resistem na Amazônia. Em cartaz até janeiro de 2026, em São Paulo.

A exposição “Tybyras: Caminhos de uma Amazônia Queer”, do artista paraense Henrique Montagne, ocupa o Museu da Diversidade Sexual (MDS), em São Paulo — o primeiro museu LGBTQIA+ da América Latina. Em cartaz até 11 de janeiro de 2026, a mostra reúne fotografias, desenhos e textos que destacam corpos caboclos, indígenas, ribeirinhos e periféricos, mapeando afetos e resistências na Amazônia paraense.

Montagne, considerado uma das vozes emergentes da arte contemporânea do Norte, parte da história de Tybyra do Maranhão, indígena tupinambá executado em 1614 sob acusação de “sodomia”, caso reconhecido como o primeiro registro documentado de morte por LGBTfobia no Brasil. A partir dessa violência histórica, o artista constrói paralelos com vivências LGBTQIA+ atuais da região.

“Vim da periferia, finalizei meus estudos em artes e trago uma produção que nasce da minha relação afetiva e ancestral com o território amazônico. Colocar esse trabalho no Museu da Diversidade Sexual tem peso simbólico enorme: afirma que a Amazônia também produz arte, pensamento e política queer”, afirma Montagne.


Percursos, memórias e territórios

Da Mairi ancestral ao Marajó: a construção de um “aldeamento de afetos”

Para compor a exposição, Montagne percorreu territórios amazônicos como Mairi (antigo nome de Belém), Ilha do Marajó, Carajás e Tapajós, registrando histórias de pessoas LGBTQIA+ indígenas, caboclas, ribeirinhas e mestiças. O conjunto forma o que o artista chama de “aldeamento simbólico” — um espaço de memórias, identidades e cura diante de séculos de apagamentos coloniais.

“É essencial ampliar os debates sobre sexualidade, gênero, biologia, clima e história colonial conectados à resistência na Amazônia”, explica.


Retomada e afirmação política

Do cancelamento à circulação nacional

“Tybyras” também marca a retomada da presença institucional das obras de Montagne. Em 2021, uma mostra sua com temática homoafetiva — já aprovada por edital — foi cancelada pelo patrocinador na véspera da abertura, episódio que repercutiu nacionalmente e reacendeu o debate sobre censura a produções LGBTQIA+.

O artista seguiu produzindo de forma independente e fortaleceu sua atuação entre Brasil, Portugal, Estados Unidos e Grécia, sempre orbitando a pergunta: “o que resiste quando tentam apagar?”

“Depois de ser barrado, decidi continuar criando a partir da Amazônia. Levar ‘Tybyras’ a São Paulo descentraliza o olhar e reafirma que o Norte também pensa o contemporâneo. Estar no MDS é um gesto político e afetivo”, afirma.

A exposição integra sua circulação nacional com apoio do Programa Nacional Aldir Blanc (PNAB).

Beatriz Oliveira, gerente do MDS, destaca o impacto da mostra:
“Trazer um artista jovem da Amazônia reafirma o museu como espaço de resistência e visibilidade. O trabalho de Henrique amplia o entendimento sobre diversidade e meio ambiente. Ele mostra que a Amazônia também é queer, viva e múltipla.”


Serviço

Exposição: Tybyras: Caminhos de uma Amazônia Queer
Local: Museu da Diversidade Sexual — Praça da República, 299, São Paulo
Período: até 11 de janeiro de 2026
Horário: terça a domingo, das 10h às 18h
Entrada: gratuita


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