O que está acontecendo na Amazônia? 25 de julho de 2025

Exploração de petróleo na Foz do Amazonas pode emitir mais CO₂ que o Brasil inteiro em um ano, alerta cientista

Estudo aponta sobreposição de blocos petrolíferos com áreas de alta prioridade para conservação ambiental na Margem Equatorial

Explorar petróleo na Foz do Amazonas pode ser um tiro no pé do Brasil na corrida contra a crise climática. Um estudo recente publicado pela revista Nature Ecology & Evolution e conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), estima que os blocos já concedidos ou em fase de oferta na região podem gerar a emissão de até 4,7 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa — mais que o dobro do total de emissões nacionais em 2023.

O alerta vem do físico Shigueo Watanabe Jr., pesquisador do Instituto ClimaInfo. “É uma quantidade tão alta que coloca em xeque qualquer discurso de liderança climática. Explorar petróleo na Foz é ampliar o problema, não parte da solução”, afirmou.

Áreas de conservação ameaçadas

O estudo revela um dado preocupante: 30 blocos de exploração de petróleo e gás na Margem Equatorial se sobrepõem a áreas identificadas pelo Ministério do Meio Ambiente como prioritárias para a conservação da biodiversidade. Em 13 desses blocos, a sobreposição passa de 80% da área total.

Além disso, muitos desses blocos estão localizados a menos de 25 quilômetros de ecossistemas sensíveis, o que amplia os riscos indiretos à fauna e à flora locais — ainda mais considerando que a região abriga uma grande variedade de espécies endêmicas e populações tradicionais.

O caso mais simbólico é o do bloco FZA-M-59, sob responsabilidade da Petrobras, cuja licença ambiental já foi negada pelo Ibama por falta de estudos adequados, mas que ainda segue sob forte pressão para aprovação.

Falta de planejamento estratégico

Os autores do estudo criticam a ausência de uma Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS), mecanismo previsto para orientar decisões sobre exploração de petróleo em áreas sensíveis. A avaliação nunca foi feita na Foz do Amazonas, embora seja obrigatória por norma conjunta dos ministérios do Meio Ambiente e de Minas e Energia.

A omissão coloca em risco não só o meio ambiente, mas também a segurança jurídica do país, ao permitir que empreendimentos avancem sem o devido planejamento ambiental.

Um impasse climático

Apesar de o governo brasileiro prometer liderar a transição energética e defender o meio ambiente, continua apostando na exploração de novos campos petrolíferos para financiar o desenvolvimento. Cientistas, no entanto, alertam que apostar no petróleo em pleno colapso climático é uma contradição perigosa.

“O Brasil tem uma matriz energética limpa, mas manter esse título exige escolhas sérias. A Foz do Amazonas deveria ser preservada, não perfurada”, defende Watanabe.


Com informações de:
Estudo publicado na revista Nature Ecology & Evolution, conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Instituto ClimaInfo e outras instituições nacionais e internacionais.
Entrevista e informações do físico Shigueo Watanabe Jr., concedidas ao site ((o))eco.

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