COP30 cai como uma bomba na produção cultural em Belém: projetos locais ficam sem patrocínio enquanto eventos ‘de fora’ recebem milhões
Festival Lambateria é cancelado e Se Rasgum relata dificuldades; críticas crescem após anúncio de show de Mariah Carey com custo de R$ 30 milhões
O público foi pego de surpresa com o anúncio de que a oitava edição do Festival Lambateria não será realizada em 2025. O comunicado oficial foi publicado nas redes sociais da organização na última semana, citando a queda de patrocínios e o aumento de custos como principais fatores.
Era de se esperar que, em um ano em que o Pará ganhou os holofotes com a realização da conferência internacional da ONU em Belém, os investimentos na estrutura da cidade também se estendesse à cultura – um dos maiores destaques do estado, ao lado de sua culinária, que, inclusive, já recebeu críticas de visitantes estrangeiros.
Na nota de cancelamento, os organizadores lamentaram:
“Tínhamos grandes planos para este ano, mas a falta/declínio de patrocínio e os custos elevados de estrutura e serviço inviabilizaram esta edição do nosso festival, que foi criado para ser um grande palco para os artistas da Amazônia e nos conectar com nossas origens.”
Criado há mais de uma década, o projeto é um dos marcos da cena cultural de Belém e se consolidou com a proposta de promover a música amazônica.

Se Rasgum: resistência em meio às dificuldades
Outro festival tradicional da capital paraense, o Se Rasgum, que chegou à sua edição de 2025, também enfrentou obstáculos históricos para garantir patrocínios. Mesmo reconhecido nacionalmente e sendo o festival mais longevo em atividade no Pará, seus criadores, Marcelo Damaso e Renée Chalu, relatam que o apoio institucional e empresarial é insuficiente diante da relevância cultural do evento.
Além dos organizadores da Lambateria e do Se Rasgum, outros artistas e produtores culturais locais relatam dificuldades para transformar a aprovação de projetos em financiamento efetivo.
Críticas ao gasto com show de Mariah Carey
Em meio a esse cenário, aproxima-se o dia da apresentação da cantora americana Mariah Carey, que vai cantar em um palco flutuante no Rio Guamá, no show “Amazônia para Sempre”, um produto derivado do Rock in Rio/The Town, com patrocínio da Vale e investimento de R$ 30 milhões. Embora grandes shows internacionais sejam comuns em eventos globais, o contraste chamou atenção: enquanto produções “pra inglês ver” recebem milhões em investimentos, a cultura local agoniza em busca de visibilidade e apoio.
Freezone Cultural Action: evento paralelo à COP30
Além do show internacional, Belém receberá a Freezone Cultural Action, evento paralelo à COP30 que afirma ter como objetivo dar visibilidade à cultura amazônica e à sustentabilidade. O projeto é organizado pelo Instituto Cultural Artô, que iniciou suas atividades em Minas Gerais, em 2020, e hoje tem sede formal em Belém (PA). O Freezone acontece de 9 a 21 de novembro de 2025, na Praça da Bandeira, com programação gratuita.
A iniciativa conta com patrocínio principal da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) e suas associadas (Hydro, Albras, Alcoa, ReciclaBR, Novelis, MRN, Termomecânica e CBA), além de parcerias com a Prefeitura de Belém, o Comando Militar do Norte, o Governo do Pará e organizações juvenis como a Cojovem. Ou seja, mais um evento que nasceu de “fora”, e conseguiu o tão sonhado patrocínio que tantos criadores de arte do Pará buscam sem sucesso.
Repercussão entre parlamentares paraenses

Os valores destinados ao show e o declínio do patrocínio à cultura local geraram forte reação entre parlamentares.
A deputada estadual Lívia Duarte (PSOL) criticou o governo estadual:
“Vai ser um show pra inglês ver porque o povo do Pará vai assistir pela televisão; quem vai assistir presencialmente é gringo. Trinta milhões! Enquanto isso, a Lambateria não vai acontecer porque não tem recurso, e o Se Rasgum, que tem emenda impositiva desta deputada, nunca foi encaminhada. Quero que seja paga e que a nossa cultura seja respeitada!”
Ela ainda apontou o silêncio de deputados da base governista diante do não cumprimento de emendas impositivas:
“Eu não tenho acordo com ninguém e quero que a emenda impositiva seja paga. O dinheiro não é do governo do estado, é nosso, que seja aplicado e que a nossa cultura seja respeitada!”
A vereadora Marinor Brito também se manifestou nas redes sociais, reforçando a indignação:
“Enquanto isso, milhões são destinados a artistas de fora. Pobre da nossa cultura. @lambateriafestival cancelado por falta de patrocínio! Triste Belém! Na cabeça de sua classe dominante, o que é bom vem lá de fora! Sigamos lutando antes que o Ver-o-Peso vire Shopping Center, como diz a canção!”
O gargalo no programa Semear
Os números do Programa Estadual de Incentivo à Cultura – Semear ajudam a dimensionar o problema. Criado em 2004 pelo Governo do Pará, o programa é considerado um dos principais mecanismos de fomento à cultura no estado, abrangendo áreas como música, teatro, audiovisual e artes visuais.
De acordo com documentos obtidos pela equipe do BT Amazônia, em 2024 a execução ficou muito abaixo do esperado:
- 770 projetos inscritos;
- 617 aprovados;
- apenas 47 realizados.
Isso representa apenas 7,6% das propostas tiradas do papel, mesmo com cerca de R$ 17 milhões captados via incentivos fiscais – valor próximo ao teto de R$ 20 milhões.
Produtores culturais apontam entraves como burocracia, desigualdade regional e dificuldade de captação fora da Região Metropolitana de Belém. E tudo isso, afirmam, ocorreu antes mesmo da COP30, que teria agravado a situação.
Impactos para a cultura e para a sociedade
O baixo índice de execução não é apenas uma estatística: representa oportunidades perdidas de promover a diversidade cultural em um estado marcado pela riqueza artística. Cada festival ou projeto que deixa de acontecer significa empregos não gerados, renda não distribuída e identidades culturais enfraquecidas, especialmente em comunidades periféricas e interioranas.
Em um momento em que o Pará se prepara para ser vitrine mundial com a COP30, a ausência de patrocínio e apoio à cultura expõe um paradoxo: a Amazônia está no centro das discussões globais, mas seus artistas ainda lutam para serem ouvidos e valorizados em sua própria terra.
Vale destacar que, mesmo com a suspensão da programação oficial, a Lambateria mantém seu tradicional encontro na sexta-feira do Círio, em formato reduzido e, até o momento, sem patrocínio confirmado.
O que dizem Semear e Secult
A equipe do BT Amazônia entrou em contato com o Programa Estadual de Incentivo à Cultura (Semear) e com a Secretaria de Estado de Cultura do Pará (Secult) sobre a baixa execução de projetos culturais em 2024 – apenas 7,6% das propostas – e aguarda retorno. O espaço permanece aberto para futuras manifestações.
Quem vai assistir ao show da Mariah Carey presencialmente?
A equipe do BT Amazônia entrou em contato com a produção do “Amazônia para Sempre” para saber se haverá plateia em embarcações ou em alguma estrutura próxima ao palco flutuante, mas, até o momento, não teve resposta. O espaço segue aberto.
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