O que está acontecendo na Amazônia? 22 de setembro de 2025

Comunicação: o abismo entre a teoria e a prática nos projetos socioambientais

O jornalista Elias Serejo faz uma análise crítica sobre os desafios de comunicação na Amazônia. Ele mostra que muitas estratégias de projetos socioambientais falham porque ignoram a realidade local — como a falta de internet estável, energia e infraestrutura — e desconsideram a diversidade cultural e linguística da região.

Por Elias Serejo

Certa vez, em uma das muitas incursões de trabalho pela Amazônia, me deparei com outro time de comunicação de uma organização parceira a que eu representava. Eles estavam indo acompanhar as ações do projeto, porém na perspectiva da instituição em que atuavam. Tudo certo, tudo tranquilo. Não fosse estratégia adotada para mobilizar, sensibilizar e envolver a comunidade na agenda que comunicariam. Programação pronta e fechada, sem possibilidade de discussão, apresentação só em formato flash, haviam superado o PPT, sem possibilidade de não haver energia para uma televisão ou um projeto. Parecia que pouco entendiam do que encontrariam em campo… Sem energia a metodologia cairia por terra.

O barco mal encostou e já tinha gente da equipe embasbacada com a realidade: embora muito distante da sede municipal, com acesso apenas por rios imensos, as casas estavam absurdamente organizadas internamente, pintadas por fora, “uma graça!”, diriam uns. “Uma estrutura de vila, né?” Refletiu uma colega. A energia só chegava à noite, com o motor movido a combustível, o sinal de celular se perde na primeira curva do rio – mesmo com o avanço das “star links” por lá – e boa parte dos mais velhos aprende pela escuta, não pela leitura.

Neste cenpário, já era possível perceber que algo ali não daria, certo? A estratégia foi pensada sem levar em conta a realidade local. A apresentação programada para “engajar às 10h” – justo a hora em que todo mundo está no mato, na roça ou no igarapé, pescando. Égua, aí a teoria pega o beco e a realidade assume o comando. O que isso nos ensina?

Os desafios reais (o que o Faria Limer não vê)

Abismo digital e energético. Em muitas regiões da Amazônia, a internet é visita, não moradora. Tem dia que funciona, tem dia que falta. Projetos que dependem só de tráfego pago, live e QR code para mobilização local morrem na praia. Quando a energia chega por gerador, comunicação em tempo real vira ficção. É por isso que rádio comunitário, carro de som, recado no posto de saúde e o velho boca a boca ainda são rei. Estratégia boa é a que respeita o relógio do território — inclusive o das marés.

Comunicar na Amazônia é falar com centenas de povos, línguas, sotaques, grafias e cosmovisões. A “Amazônia” no singular é uma invenção conveniente para relatório. O que existe são Amazônias. Cada território tem protocolos próprios de consulta, tempos de decisão e modos de contar história. Homogeneizar apaga gente. E quando a mensagem não reconhece essa pluralidade, a comunidade percebe — e se afasta.

Décadas de projetos extrativistas, ações assistencialistas e promessas quebradas deixaram um rastro de ceticismo. Em muitos lugares, comunicar começa com reparar: dizer quem somos, de onde vem o recurso, o que acontece depois da foto, quem decide o quê, como será a saída quando o projeto acabar. Sem isso, qualquer peça de comunicação — por mais bonita — vira ruído.

Quando a comunicação existe apenas para agradar fora do território, os protagonistas locais viram figurantes. A floresta vira cenário, a comunidade, plano de fundo, e a “causa” se transforma em marketing. O resultado é perverso: quem vive o problema fica invisível; quem financiou o folder leva o crédito. Comunicação que oculta conflito, custo e contradição não informa – maquia.

As oportunidades (onde a potência aflora)

Nada é mais eficiente – e ético – do que formar e fortalecer comunicadores da própria comunidade: jovens, mulheres, professores, agentes de saúde, lideranças tradicionais. São eles que conhecem a língua, o humor, o tempo da pesca e do roçado. Com uma câmera simples, um gravador e formação continuada, produzem conteúdo mais relevante que qualquer campanha milionária. E deixam legado quando o projeto termina.

Comunicação boa é a que funciona com o que se tem e onde se está. Rádio comunitário ao amanhecer. Grupos de WhatsApp quando o sinal aparece. Projetor na casa de farinha para exibir vídeo à noite. Cartaz plastificado no trapiche, porque à beira do rio chove por dentro. Teatro, música, cordel, grafismo. Tudo isso comunica com densidade porque fala a linguagem do lugar. E sim: dá para combinar tecnologia de ponta com saber tradicional — sem folclorizar.

A melhor ferramenta não é aplicativo: é ouvido. Reunião longa, conversa de varada, tempo de café. Escutar antes de propor. Entender quem fala e quem cala, como se decide, por onde a notícia corre. Escuta é método, não gentileza. E precisa estar orçada. Traduzir termos técnicos, evitar jargões, aceitar silêncio. Às vezes, o “não agora” é parte do processo de construir um sim legítimo.

A Amazônia não é pulmão; é corpo. Vivos são os rios, os quilombos, as aldeias, as palafitas, as periferias urbanas. Trocar o enquadramento utilitarista (“a floresta salva o mundo”) por um território de gente, cultura e conhecimento muda tudo: quem narra, o que se mede, como se decide e para quem se presta contas. A comunicação que descentraliza o protagonismo não romantiza nem demoniza: contextualiza, mostra conflito e valoriza soluções locais.

Do discurso ao chão: práticas que funcionam

  • Planejamento com a comunidade desde o início, não “validação” no fim.
  • Orçamento para tradução (língua indígena, sinais, acessibilidade) e para mediadores locais.
  • Calendário adaptado ao território: safra, cheia, festa, assembleia.
  • Métricas de impacto cultural além de curtidas: alcance real, compreensão, mudança de prática, governança fortalecida.
  • Licença para aprender: errar pequeno, corrigir rápido, registrar o processo e prestar contas.

Pontes, não palanques

Depois de mais de 15 anos entre Belém e o interior, aprendi que comunicar com a Amazônia dá mais trabalho – e mais resultado. Requer humildade, tempo e compromisso. Não se trata de levar mensagem; é construir ponte. Não é sobre falar mais alto; é amplificar vozes que já existem. Se um projeto precisa escolher entre o post perfeito e o pé do ouvido numa assembleia, escolha a assembleia. O like passa; a confiança fica.

E agora, um convite direto a quem decide orçamento e estratégia:

  • Seu projeto tem verba para tradução, acessibilidade e comunicadores locais?
  • Você já entrou no território sem cronograma fechado — só para escutar?
  • Quem assina a narrativa: sua agência na capital ou a liderança que segura a canoa?
  • As métricas que você cobra cabem no território — ou só no relatório?

Se a resposta incomoda, ótimo: comunicação honesta começa onde a zona de conforto termina. Belém me ensinou que a Amazônia não precisa de salvadores; precisa de parceiros. A gente segue por aqui — com rádio, WhatsApp, vídeo no projetor, conversa na beira do rio — e com tecnologia quando ela ajuda, não quando atrapalha.

Porque comunicar com a Amazônia é ouvir, devolver e permanecer.

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