Jornal 18 de julho de 2025

“Primeiramente, escute”: o grito de resistência dos estudantes da Escola Bosque expõe contradições da gestão de Igor Normando às vésperas da COP30

Você provavelmente viu um video onde uma estudante interrompe o discurso do prefeito de Belém, Igor Normando, com uma frase que virou símbolo de resistência:“Primeiramente, escute.” A cena aconteceu na última terça-feira (15), durante a visita do prefeito à Escola Bosque, no distrito de Outeiro, para anunciar uma obra orçada em mais de seis milhões […]

Você provavelmente viu um video onde uma estudante interrompe o discurso do prefeito de Belém, Igor Normando, com uma frase que virou símbolo de resistência:
“Primeiramente, escute.”

A cena aconteceu na última terça-feira (15), durante a visita do prefeito à Escola Bosque, no distrito de Outeiro, para anunciar uma obra orçada em mais de seis milhões de reais. A proposta inclui climatização por ar-condicionado, internet via Starlink — sim, aquela do Elon Musk — e outras melhorias na infraestrutura. A apresentação, no entanto, foi interrompida por estudantes que decidiram questionar o projeto e a forma como ele foi imposto.

O momento que deveria ser de celebração virou um ato político. Uma aluna de 16 anos tomou o microfone e denunciou o desmonte da Fundação Escola Bosque — extinta por decreto do próprio prefeito no início do ano — e criticou a proposta de reforma sem diálogo com a comunidade escolar.

A jovem deu uma aula. Literalmente. Explicou, por exemplo, por que a ventilação cruzada é mais eficiente e sustentável do que ar-condicionado em uma escola amazônica. Mostrou que uma obra dita “moderna” pode ser, na prática, um retrocesso ambiental e educacional.

Esse episódio evidencia um problema maior: a falta de escuta e participação na tomada de decisões públicas — especialmente em uma cidade que se prepara para sediar a maior conferência climática do planeta.

Uma gestão marcada por cortes e polêmicas

A resposta do prefeito, no entanto, não veio em forma de escuta, mas de justificativa técnica. Essa tem sido uma constante nos sete meses da gestão Igor Normando: decisões unilaterais, recuos em políticas públicas e uma crescente insatisfação popular.

Não faltam episódios para reforçar esse desgaste:

  • O fim do programa de transferência de renda Bora Belém, que beneficiava 80 mil pessoas.
  • O fechamento do Restaurante Popular, que servia refeições a R$2 e hoje está abandonado.
  • A precarização dos serviços da assistência social, denunciada por servidores da Funpapa.
  • A extinção da Fundação Escola Bosque, referência nacional em educação ambiental.
  • A falta de um plano robusto para preparar Belém para a COP30.
  • E declarações como a que associou desmatamento à fome dos ribeirinhos, revelando despreparo sobre a pauta climática.

O que está em jogo?

A poucos meses da COP30, a gestão municipal deveria estar sendo exemplo em justiça climática, participação social e planejamento sustentável. Mas o que se vê é o contrário: comunidades ignoradas, projetos padronizados e decisões de cima pra baixo.

No vídeo que viralizou, aquela aluna não falou só por ela. Ela falou por uma geração que quer ser ouvida — e que entende que política pública não se impõe, se constrói. Com escuta. Com diálogo. Com território.

A pergunta que fica: Belém está mesmo pronta para receber a COP30? E o prefeito está pronto para escutar?

Erlon Natividade

Erlon Natividade

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