Jornal 12 de agosto de 2025

Hospedagens caras na COP30: preconceito, infraestrutura e quem lucra com o caos

Com a aproximação da COP30, marcada para 2025 em Belém, um debate acirrado tomou conta das redes sociais e da imprensa nacional: o alto custo das hospedagens na capital paraense. Enquanto parte da mídia responsabiliza moradores locais, líderes comunitários e jornalistas da região alertam para uma narrativa perigosa que transforma o povo amazônida em “vilão […]

Com a aproximação da COP30, marcada para 2025 em Belém, um debate acirrado tomou conta das redes sociais e da imprensa nacional: o alto custo das hospedagens na capital paraense. Enquanto parte da mídia responsabiliza moradores locais, líderes comunitários e jornalistas da região alertam para uma narrativa perigosa que transforma o povo amazônida em “vilão oportunista” — sem mostrar as reais camadas do problema.

O discurso é direto: Belém é uma cidade pobre, com grande parte da população vivendo na pobreza. Essa realidade, defendem, não vem da suposta “ganância” do paraense, mas de um histórico de exploração econômica e abandono estrutural. O Pará fornece energia barata, minério e outros recursos para o Brasil e o mundo, mas carrega os custos socioambientais, como no caso de Belo Monte e da mineração. A chamada “Lei Kandir” isenta o ICMS sobre exportações, garantindo lucros bilionários a mineradoras internacionais enquanto o estado fica com os prejuízos.

Além disso, existe o “Custo Amazônia”: passagens aéreas para Belém que rivalizam com voos internacionais, transporte interno caro e infraestrutura mais dispendiosa devido à localização geográfica. Mesmo assim, moradores não pedem “desconto” quando viajam para outras regiões do país. “Agora, a campanha contra o amazônida coloca o livre mercado como justificativa e desvia o foco da real responsabilidade: governos estadual e federal, que não garantiram o básico exigido pela ONU para sediar a conferência”, dizem críticos.

A ONU exige apenas infraestrutura mínima: hospedagem, transporte, segurança e centros de convenções. No entanto, os investimentos locais têm priorizado obras questionadas por ambientalistas e urbanistas — como parques lineares sem tratamento de esgoto e a abertura de estradas em áreas de proteção ambiental. Sugestões como a adaptação de alojamentos universitários para receber delegações nunca saíram do papel.

Outro ponto levantado é a influência de redes internacionais de hotéis na formação dos preços. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Pará, 90% do setor é formado por bandeiras estrangeiras, que já garantiram quartos para delegações de países em desenvolvimento. Ainda assim, o recorte midiático tende a mostrar apenas casos isolados de moradores cobrando valores abusivos, reforçando estereótipos.

A polêmica também ganhou tons de disputa regional, com ataques vindos de parte do público de Manaus. Para vozes da Amazônia, essa divisão favorece interesses externos que historicamente exploram a região. “O mesmo preconceito que sofremos é o que Manaus sofre. O que precisamos é de união, não de briga entre irmãos amazônidas”, defendem.

O debate se agrava quando entram em cena os interesses internacionais. Países como Noruega, Bélgica, Suíça e Suécia, críticos à organização da COP em Belém, são também beneficiários históricos da exploração de recursos na Amazônia e em outros territórios do Sul Global. “Eles lucram com a crise climática, mas exigem conforto de primeiro mundo em territórios que ajudaram a precarizar”, denunciam.

Por fim, lideranças locais pedem que jornalistas mostrem todas as camadas do problema, evitando reduzir o povo paraense a caricaturas. “Respeitem o Pará, respeitem o Norte, respeitem a Amazônia”.

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