Da ignorância à exploração: o que a COP30 escancarou sobre o Brasil e a Amazônia
A poucos meses da COP30, a escolha do Curupira como mascote escancarou o desconhecimento sobre a Amazônia e o apagamento das vozes amazônidas. Enquanto isso, Belém enfrenta uma crise de hospedagem marcada por especulação e preconceito, e a Petrobras tenta promover sua imagem sustentável em meio à controvérsia da exploração de petróleo na Foz do […]
A poucos meses da COP30, a escolha do Curupira como mascote escancarou o desconhecimento sobre a Amazônia e o apagamento das vozes amazônidas. Enquanto isso, Belém enfrenta uma crise de hospedagem marcada por especulação e preconceito, e a Petrobras tenta promover sua imagem sustentável em meio à controvérsia da exploração de petróleo na Foz do Amazonas.
COP30: o Brasil ainda precisa aprender a ouvir a Amazônia

A poucos meses da COP30, a maior conferência climática do planeta, que acontecerá em Belém do Pará, uma figura lendária – ou melhor, encantada – foi oficialmente escolhida como mascote do evento: o Curupira. Guardião da floresta, defensor dos animais e dono de uma inteligência que desafia o senso comum, ele virou símbolo de resistência e também alvo de preconceito.
Quem primeiro debochou foi o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que, sem qualquer esforço de pesquisa ou compreensão, publicou no X (ex-Twitter) que o Curupira “anda pra trás e pega fogo”. A resposta não tardou, especialmente de vozes amazônidas. O Curupira, com pés virados para trás para despistar caçadores e a capacidade de se tornar fogo vivo como forma de defesa, é parte fundamental da cosmovisão amazônica. A fala do deputado escancarou mais do que ignorância – expôs um Brasil que ainda insiste em não conhecer seu próprio Norte.
O tropeço, porém, não ficou restrito à ala conservadora. Tentando defender o mascote, a ex-deputada Manuela D’Ávila também escorregou ao chamar o Curupira de “personagem do folclore”. Termos como folclore e lenda, apontam líderes e pensadores indígenas, são ferramentas coloniais para desacreditar saberes ancestrais. O Curupira, como outros encantados, não é invenção: é parte da memória viva, dos relatos, da espiritualidade e da identidade de povos originários e tradicionais. Dizer que ele é “folclore” é dizer que ele não existe. É negar a Amazônia que vive além do Google.

A COP não é só um evento — é um espelho

Essa falta de escuta e sensibilidade se repete em outras frentes da COP. Um dos maiores impasses até agora envolve… hospedagem. O preço abusivo das diárias em Belém virou escândalo internacional e foi criticado por delegações durante a Conferência de Bonn, na Alemanha. O setor hoteleiro reagiu com revolta às tentativas de negociação por parte do governo federal e rompeu com a organização nacional do evento.
No entanto, há sinais de avanço: pelo menos 17 hotéis se comprometeram a oferecer 500 quartos com preços entre 100 e 300 dólares para países em desenvolvimento. A vice-governadora do Pará, Hana Ghassan, está liderando negociações com o setor, e a ONU está subsidiando parte dos custos. Mesmo assim, críticas xenofóbicas continuam circulando, como as feitas por perfis nas redes que tratam os moradores de Belém como gananciosos. Um julgamento injusto que ignora os efeitos do “livre mercado” que tanto se defende em outras regiões do Brasil.

Quando o artista vira avalista de retrocesso

Na mesma semana, a atriz Camila Pitanga surpreendeu ao protagonizar uma nova campanha publicitária da Petrobras, exaltando a “transição energética justa” da empresa. A peça foi amplamente criticada por ambientalistas, cientistas e jornalistas. A Petrobras, afinal, está tentando iniciar a exploração de petróleo na Foz do Amazonas – uma área extremamente sensível e mal estudada, cuja autorização está sendo judicialmente questionada pelo Ministério Público Federal.

A participação de Camila Pitanga é especialmente preocupante. Artista historicamente engajada em pautas progressistas, ela acaba legitimando, com sua imagem, o que especialistas chamam de greenwashing: pintar de verde uma prática altamente poluente e controversa. Quando uma celebridade endossa uma mensagem, ela influencia o imaginário popular — e nesse caso, distorce o real sentido de transição justa.
Belém resiste, mas sozinha é difícil
A COP30 será um palco global, mas a forma como o Brasil está se preparando revela uma contradição: quer sediar o debate sobre o clima, mas sem ouvir quem protege a floresta. Quer mostrar o Curupira como mascote, mas não entende (ou respeita) sua essência. Quer falar de justiça climática, mas silencia as comunidades tradicionais.
O recado que vem da Amazônia é direto: se forem falar de nós, nos ouçam. Nos chamem. Nos respeitem. Porque, do contrário, a COP corre o risco de ser apenas mais um evento bonito na forma e vazio no conteúdo — exatamente o que o Curupira se esforça tanto pra evitar.
Erlon Natividade