Jornal 7 de outubro de 2025

Bastidores de Belém: O Brilho da COP-30 Esconde a Tensão e a Crise Cultural

Enquanto Belém se veste de gala para a COP-30, marcada para novembro, e as luzes do espetáculo “Amazônia Para Sempre” ofuscam a capital paraense, um drama de bastidores expõe a contradição entre a vitrine global e a realidade local. Crises na cultura, greves nas obras e a ameaça de privatização em um símbolo do cinema […]

Enquanto Belém se veste de gala para a COP-30, marcada para novembro, e as luzes do espetáculo “Amazônia Para Sempre” ofuscam a capital paraense, um drama de bastidores expõe a contradição entre a vitrine global e a realidade local. Crises na cultura, greves nas obras e a ameaça de privatização em um símbolo do cinema de arte da cidade acendem um alerta sobre quem, de fato, se beneficia da “Amazônia no hype”.


O Banimento Silencioso: Crítica e o Preço da Verdade no “Amazônia Para Sempre”

O espetáculo “Amazônia Para Sempre”, promovido pelo Rock in Rio e The Town, com patrocínio principal da Vale, aconteceu em Belém, mas o clima nos bastidores foi de tensão e exclusão. A jornalista e influenciadora Mari, do BT Amazônia, revelou ter sido desconvidada do evento – uma reviravolta chocante para quem havia sido parceira na divulgação desde o lançamento no Rock in Rio do ano passado.

O motivo? O veículo, reconhecido por sua postura crítica e investigativa, não recuou diante da denúncia do abismo entre os R$ 30 milhões alegadamente gastos na estrutura do palco e a míngua de investimentos na cultura local. A Vale, maior patrocinadora, é uma gigante do setor de mineração com uma dívida fiscal bilionária no Brasil – um fato que, segundo Mari, é o cerne do questionamento sobre a ética por trás do patrocínio.

O evento, que contou com performances estelares de Mariah Carey (cujo show durou menos de 30 minutos, gerando críticas nas redes) e as divas paraenses Joelma e Dona Onete, ocorreu para apenas 500 convidados. A exclusão do público e a não transmissão 100% ao vivo dos shows locais foram apontadas nas redes como mais um ponto de fricção.

Ainda no front ambiental, especialistas e fontes não-oficiais levantaram a suspeita de que o belíssimo palco Vitória Régia tenha sido abastecido por geradores a diesel, com uma emissão de CO2 estimada em até meia tonelada – uma ironia em um evento que carrega a bandeira de defesa da Amazônia.


Crise Cultural: Enquanto Milhões Voam, Festivais Locais Minguam

O contraste entre o investimento faraônico do “Amazônia Para Sempre” e a escassez de recursos para a cena cultural paraense é gritante. A indignação é palpável:

  • Festival Lambateria: Cancelamento por Falta de Patrocínio. Um dos eventos mais tradicionais na época do Círio, o Festival Lambateria, confirmou o cancelamento de sua oitava edição (2025) por falta de patrocínio e aumento dos custos. O caso ganhou repercussão nacional e gerou críticas de artistas como Keila Gentil e Jeff Moraes, que lamentaram a perda de um marco cultural.
  • Sonido Festival e Sirrasgum: Outros eventos consagrados, como o Sonido Festival (música instrumental) deixou de ocorrer pelo segundo ano consecutivo. O longevo Sirrasgum também enfrenta dificuldades históricas para captação de recursos.
  • Lei Semear: A Burocracia Impede o Apoio. Os números do programa estadual de incentivo à cultura, Lei Semear, escancaram o problema: em 2024, dos 617 projetos aprovados, apenas 7,6% (47 projetos) foram de fato realizados. Produtores denunciam a burocracia e a falta de cultura empresarial local em destinar parte do ICMS devido para financiar a cultura, deixando a identidade amazônida à margem.

Cine Líbero Luxardo: O Fantasma da Privatização Assombra o Cinema de Arte

Em outro front cultural, um dos símbolos de acesso democrático à arte em Belém, o Cine Líbero Luxardo, com ingressos a preços populares (R$ 12 a inteira), está no centro de uma polêmica.

Um documento interno da Fundação Cultural do Pará (FCP), datado de 22 de agosto de 2025, levantou a possibilidade de transferir a gestão do cinema para uma Organização Social (OS) ou Organização da Sociedade Civil (OSC).

Servidores, que denunciaram o caso, temem que a mudança seja uma “privatização disfarçada”, ameaçando a vocação de cinema de arte do Líbero e elevando os preços dos ingressos, hoje acessíveis, para valores comerciais, que chegam a R$ 47. Embora FCP e Secult tenham negado qualquer plano de privatização ou terceirização, o clima interno é de tensão e vigilância.


Greve da COP-30: O Berro por Dignidade no Palco Global

Com investimentos de R$ 7 bilhões em obras para a COP-30, Belém foi palco de um choque de realidade. Trabalhadores da construção civil em Belém, Ananindeua e Marituba iniciaram uma greve por tempo indeterminado em setembro.

O motivo? A rejeição à proposta do sindicato patronal (Sinduscom), que ofereceu apenas 5,5% de reajuste salarial (acima da inflação de 1,13%) e um aumento irrisório de R$ 10 na cesta básica.

Os operários, responsáveis por obras estratégicas como a Vila COP e o Parque da Cidade, exigem um aumento real de 9,5%, participação nos lucros e resultados (PLR) e uma cesta básica de R$ 270. O movimento, que atingiu 80% dos canteiros na Grande Belém, expõe a contradição entre o discurso de desenvolvimento e a luta por dignidade da classe trabalhadora local, a menos de dois meses da conferência global.


População de Rua e Hospedagens: A COP-30 em Questão

Em paralelo, a Justiça Federal determinou que a Prefeitura de Belém instale, em 45 dias, abrigos provisórios com no mínimo 50 leitos para atender a população em situação de rua da Av. Presidente Vargas, sob pena de multa diária.

No front da hospedagem para a COP-30, há sinais de alívio: o Airbnb e o Governo do Pará reportaram uma queda de 22% no valor médio das diárias entre fevereiro e agosto. A ONU também anunciou um apoio extra para países de baixa renda, elevando a ajuda de custo diária para delegados de $4 para $197.

O número de países confirmados (140) segue crescendo, mas as polêmicas e os contrastes sociais e culturais da capital paraense mostram que o caminho para a COP-30 está longe de ser um tapete vermelho. A pergunta permanece: o discurso do “Mundo Melhor” será para todos ou apenas para quem está na primeira fila?

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