Érika Sabino 7 de março de 2026

Segure suas cabritas que meu bode está solto | Por Erika Sabino

No Dia Internacional da Mulher, uma reflexão necessária sobre os sinais silenciosos da violência que ainda atravessa a vida de meninas e mulheres de forma naturalizada

Há uma frase antiga, repetida com riso fácil em rodas de conversa, festas e até dentro de casa: “Segure suas cabritas que meu bode está solto.” Durante muito tempo ela foi tratada como uma piada inofensiva, um dito popular qualquer, desses que passam de geração em geração sem que ninguém pare para pensar no que realmente significam.

Mas essa frase nunca foi inocente. Ela revela, de forma quase escancarada, uma lógica antiga que ainda atravessa nossa sociedade: a de que homens podem agir sem limites, enquanto cabe às mulheres, e às meninas, se proteger, se esconder, se resguardar. Como se a responsabilidade pelo comportamento masculino estivesse sempre do lado feminino.

Segure suas cabritas. Proteja suas filhas. Cuide das meninas. Porque o bode está solto.

Essa mentalidade, aparentemente banal, é uma das bases culturais que sustentam a violência contra mulheres e crianças. Ela normaliza o assédio, relativiza comportamentos abusivos e, muitas vezes, transforma vítimas em responsáveis pelo que sofreram.

Quantas meninas crescem ouvindo que precisam “se dar ao respeito”? Quantas são ensinadas a baixar os olhos, a falar baixo, a evitar lugares, roupas, horários — tudo para não despertar o tal “bode solto”?

Enquanto isso, pouco se fala sobre educar os meninos. Sobre limites. Sobre respeito.

A verdade é que a violência contra meninas e mulheres raramente começa com agressões físicas. Ela começa muito antes. Começa nas palavras, nas piadas, nas frases naturalizadas, nas atitudes que parecem pequenas, mas que constroem uma cultura de permissividade.

Começa quando se ri de um comentário inadequado. Quando se relativiza um comportamento invasivo. Quando se ensina uma menina a se proteger, mas não se ensina um menino a respeitar.

O resultado dessa cultura aparece nas estatísticas alarmantes de violência doméstica, abuso sexual e feminicídio. Mas, antes de virar número, essa violência já deixou marcas profundas na vida de milhares de meninas que aprenderam cedo demais a ter medo.

Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, talvez seja hora de revisitar nossas próprias frases, costumes e silêncios.

Talvez seja hora de parar de pedir que alguém “segure as cabritas”. E começar, finalmente, a responsabilizar quem insiste em deixar o bode solto.

Porque proteger meninas é importante. Mas transformar a cultura que permite a violência é urgente. E isso começa quando a gente deixa de rir de certas frases, e passa, de fato, a questioná-las.

*Erika Sabino é servidora pública e atuou como delegada da Polícia Federal diretamente no combate aos crimes de abusos sexuais contra crianças e adolescentes


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