Açaí de 50: o tarifaço que ameaça a Amazônia e escancara a crise da bioeconomia
Tarifa de 50% imposta pelos EUA pode derrubar exportações e abrir espaço para uma nova discussão: o açaí que sai da Amazônia está beneficiando quem vive nela?
Por Berna Magalhães
“Açaí de 50” é uma expressão comumente usada para relacionar uma pessoa rude ou que agiu de forma grossa – tal qual um açaí caro. Curiosamente, a decisão arbitrária do governo dos Estados Unidos de impor tarifas abusivas às importações brasileiras traz o número “50” para afetar diretamente os grandes exportadores de commodities, como café e suco de laranja – mas também o açaí.
Apesar de ser um produto ainda em desenvolvimento no mercado internacional, o açaí se consolidou como um dos maiores símbolos da bioeconomia amazônica, sendo que 31% do total de sua exportação é destinado aos Estados Unidos. Esse chamado “tarifaço” tem o poder de afetar sua competitividade global, trazendo à tona uma questão urgente: o mercado de exportação do açaí está, de fato, contribuindo para a valorização local – ou incentivando distorções que tornam o produto inacessível aos consumidores da própria Amazônia?
O açaí brasileiro é, hoje, um dos produtos mais procurados globalmente. Só em 2025, o Brasil exportou aproximadamente 15.100 toneladas de açaí, com mais de 40 milhões de dólares destinados ao mercado dos EUA. O açaí é, sem dúvida, um superalimento e uma das principais exportações da Amazônia – mas a realidade do mercado internacional tem inflacionado seu preço, tornando-o cada vez mais fora da realidade para a cultura e segurança alimentar do povo da própria região.
O “tarifaço” e seus impactos imediatos
O “tarifaço” de 50% imposto aos produtos brasileiros pelo governo dos EUA é uma ação de natureza política, mas que tem repercussões diretas sobre o mercado local. Com esse aumento nas tarifas, muitos produtores e cooperativas do Pará podem enfrentar uma queda nas vendas, cancelamento de contratos e a incerteza de continuar com o mesmo volume de exportação para o mercado norte-americano.
Mais do que uma perda de receita, a tarifa representa um freio nas importações que pode ser decisivo para os preços e para a cadeia produtiva do açaí. Contudo, em meio à crise, surge uma possível oportunidade: o impacto da redução das exportações poderia favorecer o mercado local. Com a diminuição da pressão da demanda externa, há espaço para que o preço do açaí na Amazônia se ajuste, tornando-o mais acessível ao consumidor local e fortalecendo práticas de produção mais sustentáveis, que incentivem a biodiversidade e preservem a floresta em pé.
Isso poderia, por fim, alavancar o consumo interno, mantendo o produto acessível e valorizando o mercado nacional, que muitas vezes é negligenciado em prol da maximização dos lucros para exportação.
Reconfigurando a cadeia do açaí: uma oportunidade para o Brasil
Esse provável “freio” temporário nas exportações também pode servir como um impulso para repensar a cadeia do açaí na Amazônia. A dependência do mercado externo tem levado à monocultura de açaí, com grandes áreas voltadas apenas para o cultivo dessa fruta. Isso não só prejudica o equilíbrio ecológico da região, mas também gera vulnerabilidades na economia local.
Se o Brasil utilizar esse momento para fortalecer seu mercado interno, com maior valorização das práticas agroflorestais e modelos de produção diversificados, é possível restaurar o equilíbrio e garantir que o açaí, mais do que uma commodity, se torne um produto sustentável, mais acessível e relevante para as gerações futuras.
O desafio é grande – e também traz uma oportunidade única de reverter o modelo de produção intensiva que afasta os pequenos produtores e prejudica as comunidades que mais dependem da floresta para viver. Essa possibilidade de reconfiguração pode fomentar a produção local, a segurança alimentar e o fortalecimento das pequenas cooperativas, incentivando a sustentabilidade e promovendo a cultura amazônica.
O risco de “faltar açaí” na COP-30
Em 2024, escutei uma fala do professor Hervé Rogez, em uma visita técnica ao Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA), afirmando que ia “faltar açaí para a COP-30”. E, com a Amazônia sendo o centro das discussões sobre mudanças climáticas, e o açaí sendo um ícone de sustentabilidade, é alarmante pensar que a gente possa ser pego de surpresa – não apenas pela falta de oferta, mas pela falta de controle e planejamento sobre sua cadeia produtiva.
Isso mostra o quanto a dependência externa e a falta de planejamento estratégico podem comprometer o futuro da bioeconomia local. Pensando assim, o tarifaço imposto pelos EUA pode ser uma ameaça à competitividade do açaí nas prateleiras internacionais – mas também uma chance de refletir sobre o futuro da produção local e o papel de quem rege a sociobioeconomia na Amazônia, pela construção de soluções sustentáveis que possam contribuir para o futuro do planeta – sem comprometer os interesses dos seus próprios cidadãos e de quem vive a floresta em sua plenitude.
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