O que a violência contra mulher tem a ver com a destruição da Amazônia?
Uma conexão que poucos enxergam, mas que explica muito sobre nossa crise civilizatória
Por Mary Tupiassu
O machismo é a grande praga da humanidade. Enquanto uma mulher leva mais de 60 socos em um minuto, outras dezenas de mulheres estão sendo agredidas no Brasil no mesmo minuto. É importante lembrar que antes de escravizar por raças, o homem aprendeu a escravizar, escravizando mulheres. É o ódio ao feminino transformado em sistema, em lei escrita como foi até outro dia e ainda é em algumas culturas.

No Brasil de 2024, a cada seis minutos uma mulher foi estuprada. 87.545 casos registrados, o maior número da história. A cada dia, quatro mulheres foram assassinadas por sua condição de gênero, totalizando 1.492 feminicídios, também um recorde histórico. Pra onde estamos caminhando?

Meninos aprendem desde cedo a negar o feminino em si mesmos, a provar que “não são mulherzinhas”, como se ser mulher fosse ser uma condição desprezível. Nas escolas, nos pátios, nas brincadeiras, constrói-se uma masculinidade baseada na dominação, na subjugação, na violência. O individualismo feroz que caracteriza nossa sociedade nasce desta negação primordial da sensibilidade inerente ao feminino.
A pedagogia do ódio produz homens que veem mulheres como objetos a serem conquistados, possuídos e controlados. “Se eu não posso possuir eu extermino”. Não por acaso, 80% das mulheres assassinadas em feminicídios foram mortas por companheiros ou ex-companheiros.

Nem sempre foi assim. Em Çatalhöyük, na atual Turquia, uma sociedade floresceu por cerca de mil anos (7100-6000 a.C.) com características fortemente matrilineares. Esta proto-cidade, com suas casas de tijolos de barro acessadas pelo telhado e seus murais elaborados, existiu por séculos sem evidências de guerra.
O racismo já é crime inafiançável e imprescritível desde 1989. Certíssimo! A LGBTfobia foi equiparada ao crime de racismo pelo Supremo Tribunal Federal em 2019. Corretíssimo. Mas o machismo ainda não foi criminalizado no Brasil, embora exista um projeto de lei (PL 872/2023 de Dandara Tonantzin, PT- MG) tramitando na Câmara dos Deputados que propõe criminalizar a misoginia.

Não é coincidência que o atual colapso ambiental. Mulheres e natureza são faces da mesma moeda, ambas vistas como recursos a serem explorados, dominados, consumidos até a exaustão.
O sistema que tem como viga-mestra a opressão ao feminino, separou a vida do afeto pela terra, transformou a Grande Mãe em mercadoria. O resultado é o colapso da existência humana para o qual caminhamos acelerando cada vez mais o passo.

Não há como curar a Terra sem curar a relação com o feminino.
O retorno do amor ao feminino não é romantização. É necessidade de sobrevivência. É reconhecer que os valores tradicionalmente associados ao feminino, não são fraquezas a serem superadas, mas sabedorias a serem resgatadas. A cura do machismo deveria ser disciplina obrigatória nas escolas, como fundamento de toda educação.
O machismo é a raiz de todos os problemas porque é a primeira divisão, a primeira hierarquia, a primeira violência que normatizamos. Enquanto não curarmos esta ferida ancestral, continuaremos reproduzindo sistemas de dominação em todas as esferas da vida. E caminhando para o abismo a passos largos e desenfreados de crueldade, violência e auto-destruição.