‘Se liga pra não ir pro inferno’: Câmara de Parauapebas cobra retratação de prefeito após fala sobre religiões afro
Discurso contra religiões de matriz africana gera reações de entidades, parlamentares e Ministério Público
O prefeito de Parauapebas, Aurélio Goiano (Avante), gerou uma grande polêmica após fazer declarações consideradas ofensivas e preconceituosas às religiões de matriz africana durante uma sessão solene na Câmara Municipal em celebração ao “Dia do Evangélico”, no último dia 11 de junho.
Enquanto falava sobre o apoio da prefeitura para religiões de matriz africana, ele afirma que: “um pastor irá recebê-los [pessoas de regiões afro] e ainda vai dizer: Jesus salva, Jesus cura e se liga para você não ir para o inferno!”. O vídeo viralizou na web gerando declarações de repúdio contra a fala e pedidos de retratação.
Acusações de racismo religioso

Durante seu discurso, transmitido nas redes sociais e amplamente repercutido, Aurélio Goiano afirmou que seu governo é conduzido sob forte orientação religiosa cristã e que, caso representantes de religiões afro-brasileiras buscassem apoio na prefeitura, seriam recebidos por um pastor evangélico, que lhes diria: “Jesus salva, Jesus cura e se liga para você não ir para o inferno”.
Ele também declarou que não acredita em nenhuma outra crença além do cristianismo e classificou as demais expressões religiosas como “resto”. O prefeito citou ainda o coordenador de Assuntos Religiosos do município, pastor Geraldo Teixeira, chamando-o de “matador de demônio”, dizendo que ele estaria preparado para receber membros de outras religiões.
Durante a fala, o prefeito ainda alegou ser vítima de “perseguição espiritual” por parte de adeptos dessas religiões, mencionando que seu nome teria sido “colocado na boca do sapo”.
Veja o vídeo
Câmara Municipal e entidades cobram retratação
A repercussão negativa levou a Câmara Municipal de Parauapebas a divulgar, no dia 15 de junho, uma nota oficial de repúdio às declarações do prefeito. O documento, assinado pela presidência da Casa e pela Comissão de Direitos Humanos, classificou as falas como incompatíveis com a função pública e violadoras do princípio constitucional do Estado laico.
No texto, a Câmara lamenta que uma solenidade destinada à celebração da fé cristã tenha sido usada para promover declarações que resultaram em indignação de líderes religiosos, entidades civis e diversos setores da sociedade local. Os vereadores cobram uma retratação pública de Aurélio Goiano, com ampla divulgação à população impactada.
A Federação Espírita Umbandista dos Cultos Afros Brasileiros do Pará (Feucabep) também repudiou as falas do prefeito, apontando crime de racismo religioso e solicitando providências legais contra o gestor e o responsável pela Coordenadoria de Assuntos Religiosos da cidade.
A deputada estadual Lívia Duarte também se manifestou em uma nota de repúdio divulgada nesta quarta-feira, 18. A parlamentar afirma: “Meu repúdio ao prefeito de Parauapebas, Aurélio Goiano, que ofendeu as religiões de matriz africana em declaração pública na Câmara Municipal. O papel de um gestor é cuidar da cidade e das pessoas. E o cuidado passa pelo respeito.”.
MPPA e Ministério da Igualdade Racial acompanham o caso
O caso chegou ao Ministério Público do Pará (MPPA) e ao Ministério da Igualdade Racial. A promotora Magdalena Jaguar, da 7ª Promotoria Criminal de Parauapebas, pediu à Polícia Civil diligências para apuração dos fatos. O delegado João Abel Matos já foi acionado para adotar as providências necessárias.
Juristas avaliam que as falas do prefeito violam o artigo 5º da Constituição Federal, que garante a liberdade religiosa e determina neutralidade do Estado frente às crenças, além de poderem se enquadrar na Lei nº 7.716/89, que trata de crimes de racismo — com pena prevista de até três anos de reclusão e multa, agravada em caso de envolvimento de servidor público no exercício da função.
Até o fechamento desta matéria, Aurélio Goiano não havia se manifestado publicamente sobre o caso.
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