Opinião: Amazônia e o eterno desrespeito disfarçado de amor
O artigo da publicitária e mestra em comunicação Juliana Miranda, comenta o recente episódio envolvendo a agência Monotur, de Belém (PA), especializada em turismo de base comunitária.
O artigo a seguir, escrito pela publicitária e mestra em comunicação Juliana Miranda, comenta o recente episódio envolvendo a agência Monotur, de Belém (PA), especializada em turismo de base comunitária. A empresa anunciou o cancelamento de um passeio que integraria a programação da Federação Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Turismo (Febtur), após a organização do evento não realizar o repasse antecipado de valores destinados às comunidades locais — condição considerada fundamental pela agência para a realização da atividade.
Confira o texto na íntegra:
Peço licença às queridas pessoas leitoras para informar que estou digitando esse texto com raiva. E cansada e decepcionada. 13 de junho de 2025, Belém do Pará, ano de COP 30. Dezenas de eventos acontecendo Brasil afora ressaltando a Amazônia e seus povos, destacando que temos que ser ouvidos e respeitados. Mas não passa disso, discurso. Conversa pra vencer edital e ganhar fortunas em cima do esforço e trabalho de pessoas que diariamente sofrem para garantir o prato de comida da família.
Na quarta-feira (11), eu tive a oportunidade de participar de um evento junto com mulheres incríveis, potentes, diversas e talentosas. Nosso painel era sobre diversidade e, sem falsa modéstia, entregamos uma das melhores discussões daquele dia. Nós falamos sobre turismo, comunidade e, principalmente, PESSOAS que contam com o turismo para se manter e sobreviver. A potência daquela discussão ainda me reverbera. Corta pro dia seguinte, quinta-feira (12), e todo aplauso que recebemos virou detalhe e cortina pra abafar ondas de desrespeito que viriam a seguir. Explico: meus amigos Raquel e Leandro são proprietários de uma agência de turismo de base comunitária chamada Monotour. Amplamente conhecida em Belém (e fora dela), a Monotour oferece uma experiência ribeirinha diferenciada que convida seus clientes a viverem o cotidiano de famílias de comunidade ribeirinha. Esse roteiro envolve não só o casal Monotour mas diversas famílias.
Lembra do evento que participamos na quarta? Então. Eles contrataram a Monotour para um passeio de 150 pessoas em que participariam jornalistas e personalidades. Eis que na véspera do evento (a noite), Raquel recebe uma mensagem de áudio informando o cancelamento do roteiro por falta de verba. Eu não sei se você sabe, mas a logística pelos rios da Amazônia belenense não é simples. Quando se avisa uma comunidade da beira do rio Guamá que ela vai receber 10 pessoas, essa comunidade se prepara pra isso por dias muitas vezes. Agora imagine 150. Na véspera de uma visita para 150 pessoas, a comunidade já subiu no açaizeiro e apanhou o açaí, já coletaram castanha e fizeram farinha, já pescaram o peixe do almoço, já cozinharam a pupunha e ralaram a goma pra fazer tapioca pra oferecer. Brindes feitos, expectativas criadas, sonhos envolvidos, aquela verba do final de semana. Tudo cancelado em minutos.
A gente não precisa que nos digam que somos potência, amor pulsante dentro da maior biodiversidade do planeta, povo acolhedor e caloroso. Nós sabemos. A gente já sabe e muitas vezes romantiza as dificuldades que enfrentamos para oferecer uma experiência incrível para quem nos visita. Somos invadidos com um discurso cheio de boas intenções enquanto somos apunhalados com total falta de respeito e cuidado, Seguimos marginalizados e tendo nossas dores diminuídas em prol do lucro de quem é “maior” que nós. Estamos cansados de ser aplaudidos e ovacionados num dia para que no dia seguinte a gente ouça “poxa, não vai dar. Quem sabe da próxima vez?”. Me pergunto se acreditam que tratar meu povo com tamanho descaso faz parte do “imaginário amazônico”. Todo dia eu entro nas redes sociais e vejo pessoas exaltando amor pela minha terra, pelo meu povo e pela minha cultura. Tem prazo de validade? Acaba no final de novembro de 2025?
Enquanto engajam com foto atravessando o rio e tomando açaí estão pensando em quem vive aquilo diariamente? Estão pensando no turismo predatório que derrubou casas de famílias e extinguiu os camarões da ilha do Combu e outros furos? Ou somos apenas uma paisagem para garantir o like do instagram?
Acho que o maior erro que cometem é subestimar nossa inteligência e o nosso senso de comunidade. Porque a gente segue aqui, cheios de amor pra oferecer pra quem realmente quiser nos conhecer. Mas também somos inteligentes e extremamente unidos quando se trata de cuidar do que é precioso para nós. Como a Raquel menciona com frequência: não somos um número. Somos pessoas, temos rostos, família e história. Eu sinto muitíssimo por quem não vai ter a oportunidade de compartilhar conhecimento e viver o que Ladi, Rosa, Salatiel, Iracema, Charles, Pedro, Abelha, Raquel, Leandro, Nena e tantas outras famílias podem oferecer. O nosso amor aqui é real, gente. Mas respeito é maravilhoso e a gente exige.
Já segue o Amazônia no Ar no Instagram? Clique aqui