“Máfia dos Guinchos”: pressionam abertura de CPI sobre denúncia de favorecimento ilícito em esquema envolvendo empresa e prefeitura de Belém; entenda
Contrato sem licitação e ligação familiar levantam suspeitas sobre atuação da Auto Lance Pátio e Leilões em Belém. Prefeitura alega fim do contrato.
Sabe aquela polêmica das blitzes que “pipocaram” em Belém recentemente? Pois é. Ela continua, só que agora num nível mais complexo. Uma denúncia divulgada pelo portal Folha do Pará e checada pela equipe do Amazônia no Ar levanta suspeitas sobre a relação entre a empresa Auto Lance Pátio e Leilões e o então chefe de gabinete da Prefeitura de Belém. O escândalo envolve um contrato feito sem licitação.
Entenda o caso:
Empresa sediada no interior do estado ganha contrato em Belém sem licitação

A empresa responsável pelos guinchos e pela estadia dos veículos nos pátios de retenção, a Auto Lance Pátio e Leilões, possui sede no município de Xinguara, no sul do Pará. A distância da capital gerou o questionamento: por qual motivo a contratação da empresa para atuar na capital paraense, especialmente sem a realização de processo licitatório?
A resposta pode estar na relação de um dos sócios da empresa, com o ex-chefe de gabinete de Igor Normando. O advogado Clidean Ferreira Chaves, sócio-administrador da empresa e ex-candidato a prefeito de Pau D’Arco (PA), é irmão de Cleidson Ferreira Chaves – conhecido nas redes sociais como Cleiton Chaves –, que até então ocupava o cargo de chefe de gabinete do prefeito de Belém, Igor Normando. A proximidade familiar entre o sócio da empresa e integrantes da administração municipal é um dos pontos que reforçam as suspeitas sobre possível favorecimento.
Valores arrecadados com serviços de guincho

Os valores cobrados pelos serviços prestados pela empresa são expressivos com preços que variam de acordo com o porte do veículo apreendido:
- Veículos leves: Guincho no valor de R$ 257,59 + diária de R$ 68,00 + taxa bancária de R$ 4,80 = R$ 329,67;
- Veículos médios: Guincho no valor de R$ 336,84 + diária de R$ 105,00 + taxa bancária de R$ 4,80 = R$ 445,92;
- Veículos pesados: Guincho no valor de R$ 1.882,35 + diária de R$ 130,00 + taxa bancária de R$ 4,80 = R$ 2.016,40.
De acordo com informações da própria Prefeitura de Belém, divulgadas pela Secretaria Municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade (SEGBEL), desde o início das ações de fiscalização no trânsito da capital, até o dia nove de maio de 2025, foram realizadas cerca de 60 operações, com mais de 1.500 veículos removidos das vias públicas por apresentarem irregularidades.
A operação da SEGBEL, nomeada de “Belém em Ordem“, tem como foco, segundo a própria, identificar e retirar de circulação veículos e condutores em situação irregular. Considerando que o valor mínimo para a arrecadação de veículos apreendidos é de R$ 329,67 — valor que pode variar conforme o porte do automóvel —, estima-se que o montante arrecadado até o momento ultrapasse R$ 490 mil. Salientando que o cálculo feito aqui considera apenas o valor mínimo sobre os mais de 1.500 veículos removidos, o que representa uma arrecadação aproximada de R$ 494.505,00.
Representação legal levanta mais dúvidas
O contrato da empresa com a Prefeitura de Belém, conforme documentos obtidos pelo Folha do Pará, foi firmado com dispensa de licitação e traz como representante legal Edson Vicente do Nascimento Filho, sócio de Clidean.
Recentemente, Cleidson Ferreira Chaves foi transferido do cargo de chefia de gabinete para a Secretaria de Zeladoria e Conservação Urbana de Belém, antes ocupada por Thayta Martins.
Vai ter CPI?
Após a divulgação inicial do caso, a vereadora Agatha Barra (PL) protocolou um pedido de abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o que vem sendo chamado de “máfia das blitzes” ou até de ”CPI dos guinchos” em Belém. Até o momento, no entanto, apenas cinco assinaturas foram recolhidas – as dos três vereadores do PL, Mayky Vilaça, Zezinho Lima e Agatha Barra, além de Marinor Brito e Vivi Reis, ambas do PSOL.
Para que a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) seja instaurada formalmente, é necessário que o requerimento seja assinado por, no mínimo, um terço dos membros da Câmara Municipal.
Motoboys protestaram contra suposta fiscalização abusiva
No fim de maio deste ano, motoboys da capital realizaram um protesto contra o que consideraram uma fiscalização excessiva e abusiva por parte da Secretaria Municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade de Belém (SEGBEL).
Na época, a Prefeitura de Belém divulgou nota oficial defendendo a legalidade das operações. Segundo o comunicado, a intensificação das blitzes e fiscalizações de trânsito ocorre “com observância e respeito aos limites legais”.
Ainda de acordo com a gestão municipal, parte dos condutores – especialmente motociclistas, que representam o maior número de infrações segundo dados oficiais – estaria demonstrando resistência às medidas adotadas para promover um trânsito mais seguro.
O que diz a Prefeitura de Belém?
A equipe do Amazônia no Ar entrou em contato com a Prefeitura de Belém para solicitar um posicionamento oficial sobre as denúncias. Em nota enviada à redação, a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade Urbana (Segbel), afirmou que não mantém mais relação contratual com a empresa Auto Lance Pátio e Leilões desde a rescisão do contrato, solicitada em 20 de maio de 2025 e publicada no Diário Oficial do Município (DOM) em 5 de junho deste ano.
A gestão municipal alegou ainda que a empresa que antecedeu a Auto Lance atuava “sem qualquer tipo de contrato”, o que motivou a contratação emergencial da nova prestadora de serviço. Segundo a nota, o processo foi realizado “atendendo a todos os requisitos legais de habilitação e diante das demandas administrativas e operacionais desta secretaria”.
A Prefeitura afirmou que, até o próximo dia 13 de junho (sexta-feira), será publicada no Diário Oficial uma chamada para a licitação do serviço. Além disso, garantiu que todos os esclarecimentos sobre o contrato já foram encaminhados ao Ministério Público Estadual.
A Segbel ainda afirmou que a fiscalização no sistema de trânsito de Belém está sendo realizada com “observância e respeito aos limites legais” e que “Observa-se, entretanto, que uma parcela dos usuários, especialmente motociclistas — grupo que, segundo dados, concentra o maior número de infrações —, tem demonstrado resistência às medidas que visam o cumprimento da legislação e a promoção de um trânsito mais seguro”.
A secretaria finaliza a nota frisando que: “qualquer indício de ilegalidade nas abordagens será devidamente apurado”.
A equipe do Amazônia no Ar entrou em contato com a empesa Auto Lance Pátio e Leilões sobre o caso e aguarda retorno. O espaço segue aberto.
Já segue o Amazônia no ar no X? Clique aqui