O novo sempre vem
Com a partida de Jards Macalé e Afrika Bambaataa para suas próximas vidas, me veio um sentimento de que essa vida me proporcionou grandes momentos. Reverenciar artistas que a gente admira muito vivos é um grande privilégio, e falo isso sob o ponto de vista de ser um produtor cultural inquieto, que não só fica […]
Com a partida de Jards Macalé e Afrika Bambaataa para suas próximas vidas, me veio um sentimento de que essa vida me proporcionou grandes momentos. Reverenciar artistas que a gente admira muito vivos é um grande privilégio, e falo isso sob o ponto de vista de ser um produtor cultural inquieto, que não só fica excitado com o novo, mas realizado quando sabemos que nossa trajetória teve artistas que amamos como os dois já citados, mais Gal Costa, Marku Ribas, João Donato, Tom Zé, Novos Baianos, Max Romeo, Márcia Griffiths, Dona Onete, Pinduca, Manoel Cordeiro, Nilson Chaves, Nei Lisboa, Moraes Moreira etc. Da mesma forma que sinto muito orgulho quando sei que uma banda floresceu nos nossos palcos.
Desde que passei a escrever a coluna, quis me permitir falar de outras coisas e raríssimas vezes falar sobre o meu trabalho com a Se Rasgum. Mas na semana passada, na noite de lançamento do Festival Amazônia (Fi)Doc, me deparei com esse assunto que é recorrente no meio da produção cultural: o espaço para o novo.
Nessa noite, encontrei uma parceira de longas datas, Heluana Quintas, e ela lembrou da primeira vez que sua banda tocou no Festival Se Rasgum, lá de 2008. A Minibox Lunar foi uma das coisas que me fez parar pra pensar (novamente) sobre esse papel de revelar e dar espaço para o novo.
Lembro de estar avaliando material de bandas para aquela edição e nos deparamos com um vídeo de baixíssimo orçamento dessa galera de Macapá. Era cru, mas tinha muita honestidade ali, uma banda de verdade, expressiva. Apostamos e trouxemos. Carlos Eduardo Miranda (ele novamente) estava nessa edição como convidado e adotou a banda para produzir. A revista Rolling Stone colocou como uma das maiores revelações do festival. Detalhe: aquele era apenas o segundo show deles. Antes, só tinham tocado em um barzinho em Macapá.
Dessa mesma forma, eu citaria dezenas de bandas que brilharam no palco, tiveram seu momento, mas a boca faminta da indústria acabou engolindo vários deles e deixaram de existir. Mas, da mesma forma, muitas bandas criaram asas e voaram. E nosso palco foi o primeiro de muitos artistas hoje consolidados. A gente lembra com carinho do Emicida em 2010, que veio ele, o DJ e o empresário, cobrando uma merreca, mas depois se tornou o grande artista que ele é.
São muitas e muitas lembranças e orgulhos que carregamos e recorro a mais um grande ídolo que gostaria muito de ter reverenciado em vida. No entanto, sua mensagem ficou. “No passado a mente e o corpo é diferente, e o passado é uma roupa que não nos serve mais”, diria Belchior em ‘Velha Roupa Colorida’. Mas é em ‘Como nossos pais’ que profetiza dizendo que “o novo sempre vem”.