O que está acontecendo na Amazônia? 15 de abril de 2026

Indígenas Gavião denunciam contaminação de rios e mortes por câncer em trecho operado pela Vale no Pará

Uma grave denúncia movida pelo povo indígena Gavião expôs o que o Ministério Público Federal (MPF) classifica como uma operação “clandestina” da mineradora Vale S.A. no sudeste paraense. Imagens e vídeos entregues às autoridades comprovam a circulação irregular de trens carregados de minério em uma segunda linha da Estrada de Ferro Carajás (EFC), que corta […]

Uma grave denúncia movida pelo povo indígena Gavião expôs o que o Ministério Público Federal (MPF) classifica como uma operação “clandestina” da mineradora Vale S.A. no sudeste paraense. Imagens e vídeos entregues às autoridades comprovam a circulação irregular de trens carregados de minério em uma segunda linha da Estrada de Ferro Carajás (EFC), que corta a Terra Indígena (TI) Mãe Maria, sem licença ambiental e sem consulta prévia aos povos originários.

Em resposta, o MPF ajuizou uma Ação Civil Pública no final de fevereiro de 2026, exigindo a paralisação imediata do trecho de 18 quilômetros que atravessa o território. A ação atinge também o Ibama, acusado de omissão na fiscalização.

Contaminação por metais pesados e mortes suspeitas

O clima nas aldeias Parkatêjê, Kyikatêjê e Akrãtikatêjê é de luto e medo. Um laudo técnico do Ibama, de novembro de 2025, confirmou o que os indígenas já sentiam na pele: a bioacumulação de mercúrio em peixes e a degradação drástica da qualidade da água dos rios Mãe Maria, Jacundá e São Gregório. Em alguns pontos, o índice de potabilidade despencou de “bom” para “péssimo” durante as obras de duplicação.

Lideranças indígenas relatam um aumento atípico de casos de câncer e mortes súbitas por falência do fígado em jovens que não consumiam álcool. “O nosso território está como se tivesse recebido um diagnóstico de câncer. É um impacto mental que nos impede de comer, pescar e se banhar. É uma dor muito grande“, desabafa a cacica Tuxati Parkatêjêm.

Invisibilidade e falta de licença

Segundo a procuradora da República Gabriela Puggi Aguiar, a Vale operava a segunda linha férrea como se fizesse parte da estrutura antiga, omitindo que se tratavam de obras distintas para evitar novos processos de licenciamento e compensações. O Ibama chegou a negar a inclusão do trecho duplicado na licença existente devido ao descumprimento de condicionantes ambientais, mas a mineradora teria seguido com o tráfego sob a justificativa de realizar “testes”.

O biólogo Jansen Zuanon, especialista em peixes amazônicos, reforça que a contaminação por ferro, alumínio e níquel é muito superior nos trechos abaixo da ferrovia (jusante) em comparação aos trechos acima (montante), o que liga diretamente os danos ao transporte de minério.

O impasse judicial e financeiro

Após protestos que interditaram a ferrovia por quase uma semana em março, circulam informações sobre um suposto acordo de R$ 50 milhões entre a Vale e os indígenas para a liberação da via. O MPF confirmou ter intermediado reuniões de conciliação, mas não comentou valores para preservar a autonomia das comunidades.

O MPF agora exige:

  • Paralisação imediata da linha duplicada na TI Mãe Maria;
  • Inversão do ônus da prova, obrigando a Vale a entregar imagens de segurança para calcular o lucro obtido com a operação ilegal;
  • Indenização por danos morais coletivos às 1,2 mil pessoas que vivem no território.

O que dizem os citados

A Vale limitou-se a informar que se manifestará nos autos do processo. O Ibama reconheceu as alterações na qualidade da água e a presença de mercúrio nos peixes, mas alegou ser necessário aprofundar estudos para associar a origem do metal diretamente à mineradora. A Funai não se manifestou até o fechamento desta edição.

*Matéria realizada com informações do Portal Amazônia Real.

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