As bermudas da sinceridade
O que os documentários “Andar na pedra: a história dos Raimundos” e “A origem do Red Hot Chilli Peppers: Nosso irmão Hillel” tem em comum? Ambos são estreias recentes de bandas seminais dos anos 1990, na Globoplay e Netflix, respectivamente. Primeiro ponto. Mas, coincidentemente, os dois documentários trazem algumas coisas em comum que me pegaram […]
O que os documentários “Andar na pedra: a história dos Raimundos” e “A origem do Red Hot Chilli Peppers: Nosso irmão Hillel” tem em comum? Ambos são estreias recentes de bandas seminais dos anos 1990, na Globoplay e Netflix, respectivamente. Primeiro ponto. Mas, coincidentemente, os dois documentários trazem algumas coisas em comum que me pegaram de jeito: rock feito por amigos, criados na adolescência com a paixão pela música, inovadores como gênero de fusão, superaram a temível marca dos três primeiros discos, a base da banda se conheceu em uma carona de um terceiro integrante mais velho e, finalmente, fixaram moradia nos anos 1990 com o rock de bermudas.
Eu tinha 16 anos, era cria da MTV Brasil e da Revista Bizz, e aí soube do surgimento dos Raimundos, um quarteto de Brasília que misturava hard-core com forró. Na MTV foi o clipe de “Nega Jurema” que me pegou de jeito, e eu fiquei doido pela banda. Na Revista Bizz, uma matéria sobre o surgimento do selo Banguela, uma aposta do grande, saudoso e sempre presente Carlos Eduardo Miranda. Meus pais viajaram para o Sudeste e pedi para eles me trazerem duas fitas-cassetes: Raimundos e Pato Fu. Lembro do meu pai dizer “que nomes de banda, hein?!”.
O ano era 1994, e então o Ná Figueredo (sempre ele) realizou o primeiro show bem no momento em que os Raimundos explodiram, no Iate Club, com Delinquentes abrindo. Eu, um moleque cabeludo que conseguiu convencer os pais de que tinha uma carona pra ir e voltar (até hoje não lembro com quem foi), cheguei lá, senti no peito o impacto dos Delinquentes e vi o desbunde que foi Raimundos ao vivo. Assistir ao documentário me transportou diretamente para aquele dia e sua véspera, quando eles fizeram uma sessão de autógrafo em uma loja no, até então, Shopping Iguatemi. Digão deslumbrado e se achando; Canisso, o grandão de olhar baixo, poucas palavras e simpatia; Fred, o gordinho simpático e político; e Rodolfo, super tímido, humildade pura e tratando os fãs como amigos que ele conheceu ali numa festa.
Em “Andar na pedra”, todos esses estereótipos se confirmam, mesmo na percepção de um garoto de 16 anos. Eu mesmo perdi o interesse em Raimundos após o terceiro disco. É um documentário dos mais verdadeiros que já vi, nem Digão consegue ser um vilão, apenas cada um conta a história do seu jeito. Mas quem te leva até o final dos cinco episódios de uma hora é Rodolfo, com seu relato humanizado, sincero e emocionante. É difícil segurar as lágrimas. Parece que eles eram todos nossos amigos.
“A origem dos Red Hot Chilli Peppers: Nosso irmão Hillel” me prendeu e não consegui nem ouvir minha esposa me chamando para almoçar num domingo. O que me tocou na história do RHCP foi exatamente o que me prendeu nos Raimundos: a amizade se transformando em música. A amizade que se cria por causa da música. Como dois moleques como Flea e Kiedis, Rodolfo e Digão, tornaram a molecagem uma coisa verdadeira com o espírito de bandas de rock que a gente acredita. Good cop bad cop nos dois casos. Mas aí é julgamento meu. Flea o cara legal, Anthony Kiedis não. Rodolfo legal, Digão não. Daí que entra o terceiro elemento, o cara mais velho que segura a mão dos moleques, dando uma carona um belo dia. Coincidentemente, ambos já morreram, só que no filme dos Red Hot, o vício é o que conduz o documentário. No final, me fez entender porque eu não gosto da banda desde One Hot Minute pra cá.
As coincidências vão além das bermudas, do nascimento genuíno vindo de uma amizade, da trajetória quase que previsível de altos e baixos, de um ressurgimento que dividiu os fãs e de como os anos 1990 trouxeram o rock fora da caixa como marca pulsante dessa geração, o Forró-core e Punk-Funk.