Coluna Marcelo Damaso 5 de março de 2026

Sua arte precisa de um troféu? | por Marcelo Damaso

Em reflexão sobre prêmios e reconhecimento, o colunista Marcelo Damaso questiona o peso das premiações na arte e discute como a indústria cultural pode transformar criação em vaidade, lembrando exemplos de artistas que priorizaram autenticidade em vez de troféus.

O que vem antes, reconhecimento ou vaidade? A arte, no geral, nasce de um desejo legítimo de se expressar e colocar no mundo sentimentos para compartilhar. A gente sabe quando viu um filme, leu um livro, foi a uma exposição ou escutou um álbum que mexeu com alguma coisa lá dentro. E às vezes, a gente não quer mexer com nada, quer desligar o corpo e a mente e se jogar na primeira onda sem desejo. Nem tudo é feito pra revolucionar.

Faz algum tempo que venho pensando em como tocar nessa questão de prêmios, como troféus que justifiquem o gosto e interesse pessoal de um seleto grupo que decide o que é bom o suficiente. Mas bom para quem? Mercado? Público? A arte, essa expressão subjetiva, não precisa do reconhecimento de engravatados. Consigo entender artistas que celebram o prêmio como uma vitória, jamais desmereceria. Mas sempre me pergunto se eles estão fazendo isso por algo que acreditam dentro de suas criações ou se estão mirando em audiência.

Não sou um grande fã de prêmios. Assisto ao Oscar, Globo de Ouro e até vou atrás de algumas coisas do Prêmio Jabuti, por exemplo. Mas no meio que eu trabalho, música, realmente nunca prestei atenção no Grammy, por exemplo. Embora seja muito significativo ver um cara como Bad Bunny recebendo esse merecimento em um momento tão importante para o mundo, não exatamente pela sua curta e vitoriosa carreira. 

Esses dias assisti ao filme “Springsteen: Deliver me from nowhere”, com o título em português de “Salve me do desconhecido”, sobre uma fase decisiva na vida do chefe Bruce Springsteen (interpretado pelo chef atormentado Jeremy Allen White, onde “O Urso”), quando ele vem da turnê arrebatadora de “The River” e resolve fazer o que achava certo no momento: colocar suas dores da forma mais crua, direta e visceral possível no incrível (e um dos meus discos favoritos) “Nebraska”. A decisão de Bruce naquele momento, entendendo o que o show business lhe reservava, teria poupado a vida de alguns, tipo Kurt Cobain. O sucesso é uma faca de dois gumes.

O Chefe ganhou mais de 20 Grammys, mas nem sempre esteve presente pra receber. Não estava lá, por exemplo, quando ganhou por “Dancing in the Dark”. Bob Dylan também ganhou e não compareceu, assim como não foi quando ganhou seu Prêmio Nobel de Literatura. Rebeldes sim, sem causa nunca.

Nem sempre o mais vendido é o melhor. Vetores são importantes, mas a gente tem que se ligar nas armadilhas cruéis e perigosas da indústria da música. 


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