Coluna Marcelo Damaso 12 de fevereiro de 2026

O capitalismo roubou minha virgindade | por Marcelo Damaso

Na coluna do idealizador e organizador do Festival Se Rasgum, o músico, DJ e escritor Marcelo Damaso, o autor propõe uma reflexão sobre poder, dinheiro e os caminhos da cultura entre o mainstream, o underground e os desafios de Belém em tempos de COP 30.

Teve uma banda no início dos anos 00 chamada The (International) Noise Conspiracy, da Suécia, capitaneada por um punk doidão chamado Dennis Lyxzén, que era da lendária banda de hardcore Refused. E como o punk nasce torto e nunca se endireita, a Refused e a The (INC) mirava exatamente naquele alvo clássico que qualquer inconformado mira: o sistema, o maldito sistema, a sociedade, o consumismo, o dinheiro, o poder e tudo o que transforma o ser humano no lixo que ele é. O título desse texto é retirado de uma música deles chama Capitalism stole my virginity.

Quando a Mary Tupiassu me convidou para escrever a coluna, a gente conversava exatamente sobre essa pequena e destruidora palavra: poder. Nós buscamos alcançar muitas coisas na vida adulta profissional, como notoriedade, prestígio, confiança, respeito e, sobretudo, algo que nos dê uma razão para viver. Tudo isso está relacionado ao dinheiro, esse satânico pedaço de papel. Mas quando se tem dinheiro, o que mais se pode querer? Se o dinheiro passa a não ser mais um problema na sua vida, a ambição que te levou até ali vai querer te colocar a outro patamar. E nesse contexto entram ditadores, políticos corruptos, latifundiários e toda a fauna e flora de gente rica que adora humilhar pobre.

Sempre admirei processos coletivos, movimentos que unem pessoas com os mesmos valores e a inquietação de não deixar as coisas como estão. Vivemos em um mundo hipócrita, desleal, desigual e de uma eterna busca pelo ouro. É a realidade do garimpo espalhada em diversos níveis sociais. Eu vejo claramente acontecer dentro da cultura de um modo geral. Quanto mais se quer, mais se vende, mais se mente e mais se corre atrás de massa de manobra. A eterna luta do mainstream contra o underground. O lance é que bem no meio existe o midstream. Em outras (minhas) palavras, eu diria que o mainstream é a urgência a curto-prazo e o underground é o que sempre será, a longo-prazo. Mas o midstream, como a palavra invoca, é a médio-prazo, é o novo.

Sempre acreditei que trabalhar com cultura seria uma forma de construir novos cenários, realidades possíveis dentro de uma escala de prioridades de uma sociedade. A trinca educação-saúde-cultura, se você vive em um lugar que não se importa com isso, a luta passa a ser ainda mais desafiadora.

Vivemos um período complicado em uma Belém pré-durante-pós COP 30. Mudar as coisas ou manter o que vinha dando certo? Elevar padrões não significa maquiar resultados, ir atrás do rei do gado e se comparar a um padrão de mercado centro-sul. E aqui entra meu amigo midstream.

Finalizando com um verso da música que intitula esse texto: “Nenhuma parte está tocada pela vergonha. Quem disse que nós poderíamos sobreviver com nossos jogos de infância? Dias de inocência se vão. Evite o choque e tente se manter vivo”.


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