Ativista questiona suposta série de eutanásias de animais com esporotricose no CCZ de Belém; entenda o caso
Relatos sobre casos de esporotricose felina questionam condutas adotadas pelo Centro de Controle de Zoonoses da capital paraense, com indicação de eutanásia mesmo em situações em que haveria possibilidade de tratamento.
Uma denúncia feita pela protetora e ativista da causa animal Carmem Américo (@instituto_carmen_americo) levanta questionamentos sobre a condução de casos de esporotricose animal em Belém. Segundo relatos divulgados por ela nas redes sociais e confirmados à reportagem, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), órgão municipal responsável pelo monitoramento de doenças que podem ser transmitidas entre animais e humanos, estaria sugerindo a eutanásia de animais diagnosticados com a doença mesmo em situações em que há possibilidade de tratamento.
De acordo com a denúncia, a prática também envolveria animais de rua, sem tutores, recolhidos pelo órgão. A ativista sustenta que a medida estaria sendo adotada de forma recorrente, e não apenas em casos extremos o que provocou a eutanásia de diversos animais que poderiam ser tratados. A doença, que é diagnosticada majoritariamente em gatos, também está sendo diagnosticada em cães.
O que diz a denunciante
Vamos do início. A equipe do Amazônia no Ar conversou com Carmem Américo, que afirma que os relatos sobre uma quantidade expressiva de casos da doença em Belém existe desde 2016 sem uma solução concreta. A situação teria atravessado diferentes gestões municipais — passando pelo mandato do ex-prefeito Zenaldo Coutinho, pelos anos da administração de Edmilson Rodrigues e chegando à atual gestão — sem que, de acordo com seu relato, houvesse uma solução estrutural.
A ativista relata que tutores que procuram atendimento para animais com esporotricose, especialmente gatos, principais alvos da doença, estariam recebendo, na grande maioria dos casos, a sugestão de eutanásia sob o argumento de que o tratamento é longo e exige cuidados rigorosos. Entre eles, isolamento do animal, uso de luvas ao manuseá-lo, higienização constante do ambiente e administração de medicamentos por períodos prolongados.
Ela defende que o poder público poderia oferecer suporte, como fornecimento de medicamentos e orientação adequada, mas afirma que isso não ocorreria de forma efetiva. Carmem também sustenta que Belém vive há anos um cenário de ampla disseminação da doença, com casos em diversos bairros da Região Metropolitana e registros já presentes em municípios do interior do Pará.
Atualmente, Carmem cuida de três animais diagnosticados com esporotricose, entretanto, ela já cuidou de outros 24 casos de animais com a mesma doença. Segundo ela, todos se recuperaram, ou estão em recuperação.
Veja um dos vídeo publicados nas redes sociais denunciando o caso:
Outros protetores relatam experiências semelhantes
A reportagem também conversou com outros protetores e ativistas da causa animal que afirmaram ter presenciado casos de indicação de eutanásia para animais diagnosticados com esporotricose.
A protetora Shirley Ferreira (@gatodemuro), que atualmente cuida de cerca de 150 animais, relatou que mantém diversos gatos em tratamento contra a doença e afirma que eles estão se recuperando. Segundo ela, a própria casa foi adaptada para funcionar como espaço de cuidado.
“Eu transformei a minha cozinha em um hospital para tratar gatos com esporotricose. Eu resgato todos os gatos com esporotricose que eu vejo porque eu quero salvar eles da morte da zoonose. Eu quero salvar esses gatos da morte”, afirmou.
Shirley divulga em suas redes sociais registros do antes e depois de vários gatos que se recuperaram ou estão em processo de recuperação.

A protetora também falou sobre o tempo de tratamento e os desafios envolvidos:
“A cura, dependendo do gato, é de um mês a três meses, mas tem uns gatos que passam de quatro meses a seis meses. Esse cuidado ninguém quer ter. O sistema público não quer ter, não quer gastar, não tem pessoal. E eu não sei quantas pessoas fazem isso, mas resgatar e cuidar é um ato de amor, porque é arriscado. Arriscar a vida não é um detalhe. Tem pessoas que pegaram esporotricose e não sabem o que pegaram.”
Depoimento de tutor relata pressão por eutanásia
Em depoimento ao Amazônia no Ar, um tutor que preferiu não ser identificado afirmou ter presenciado situações em que a eutanásia teria sido apresentada como principal alternativa para animais com diagnóstico de esporotricose.
Segundo ele, um dos casos ocorreu quando esteve no CCZ para levar uma gata para castração e presenciou o atendimento de outra tutora.
“Eu presenciei, estava no zoonoses para levar uma gata para castração, e lá estava uma moça com a gata dela com apenas uma ferida na pata. Após fazer o exame, deu positivo para esporotricose e praticamente não deram outra opção para a pessoa a não ser a eutanásia”, relatou.
Ela afirma que tentou alertar a tutora sobre a possibilidade de tratamento. “Eu falava para ela que tinha tratamento, mas eles conseguiram convencer ela de que o animal precisava ser eutanasiado. A dona não queria, porque as filhas eram muito apegadas à gata, mas ela ficou muito abalada e acabou deixando o animal lá”, disse.
O depoente também contou o próprio caso. “Quanto ao meu gato, ele ficou curado. Eu não deixei fazerem a eutanásia nele”, afirmou.
Outro relato envolve a gata de uma vizinha. De acordo com o tutor, a animal também tinha esporotricose e a dona teria contraído a doença. “Eles mandaram levar a gata para eutanásia no zoonoses. Levaram no dia 21 de novembro de 2024 e a gata foi eutanasiada”, declarou.
A tutora afirma que só conseguiu evitar o procedimento em seu próprio animal porque já tinha experiência com a doença. “Eu tenho conhecimento e já cuidei de vários animais com esporotricose. Por isso, não deixei eutanasiar o meu gato”, completou.
O que é a esporotricose
A esporotricose é uma micose infecciosa e zoonótica causada por fungos do gênero Sporothrix. O fungo vive no solo, especialmente em ambientes com matéria orgânica, plantas e madeira em decomposição. Por isso, em humanos, a doença é popularmente conhecida como “doença do jardineiro”.
É considerada uma zoonose porque pode ser transmitida de animais para humanos. Os gatos são os mais afetados, em parte por seus hábitos de cavar a terra e por apresentarem grande quantidade do fungo nas lesões.
Nos animais, principalmente nos felinos, a doença costuma se manifestar por meio de feridas na pele que não cicatrizam e podem se espalhar pelo corpo. Também podem ocorrer inchaço no focinho, espirros e, em casos mais graves, dificuldades respiratórias. A transmissão acontece principalmente por arranhaduras, mordidas de animais infectados ou pelo contato com ambientes contaminados.
Apesar da gravidade, a esporotricose tem tratamento, que é prolongado e exige acompanhamento adequado.
O que diz a lei sobre eutanásia de animais
A Lei nº 14.228/2021 proíbe a eutanásia de cães e gatos de rua por órgãos de controle de zoonoses, canis públicos e estabelecimentos similares, exceto em situações de doenças graves ou enfermidades infectocontagiosas incuráveis que representem risco à saúde humana ou de outros animais.
A legislação estabelece que, nesses casos, a eutanásia deve ser respaldada por laudo técnico que comprove a necessidade do procedimento, e entidades de proteção animal devem ter acesso à documentação. O descumprimento pode resultar em penalidades previstas na Lei de Crimes Ambientais.
Do ponto de vista técnico e ético, a eutanásia é considerada um recurso de última instância, indicado para interromper dor e sofrimento irremediáveis, quando não há possibilidade de recuperação.
O que diz o CCZ?
A equipe do Amazônia no Ar procurou a Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma), para esclarecer os protocolos do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) no manejo da esporotricose, os critérios para eutanásia e os dados sobre a doença no município.
Em nota, a Sesma informou que a esporotricose é causada por fungos presentes no solo e em plantas, sendo conhecida como “doença do jardineiro”. A infecção ocorre quando o fungo entra no organismo por meio de ferimentos na pele. Diversas espécies podem ser afetadas, mas os gatos são considerados mais vulneráveis e principais transmissores, por apresentarem maior carga fúngica nas lesões.
Segundo o CCZ, o manejo varia conforme a situação do animal. Nos casos de animais com tutor, o órgão afirma que realiza diagnóstico laboratorial, emite laudo, fornece prescrição veterinária e orientações para tratamento domiciliar. Já em relação aos animais errantes, a atuação ocorre mediante solicitação da comunidade, com vistoria, coleta de material para exame e retirada do animal do ambiente quando a doença é confirmada, mediante autorização legal.
Sobre a eutanásia, o CCZ afirma que o procedimento não é rotina.
“A esporotricose é uma doença tratável. A eutanásia somente é considerada em situações excepcionais, como estágios muito avançados da doença, falha terapêutica após tentativa de tratamento ou quando o tutor, por impossibilidade comprovada, opta formalmente por essa medida”, diz a nota. O órgão também ressalta que o procedimento não é recomendado em casos tratáveis e que não há média diária de eutanásias, por se tratar de medida pontual.
A secretaria informou que o primeiro caso de esporotricose em Belém foi registrado em 2018 e que houve crescimento progressivo, associado ao abandono de animais doentes, interrupção precoce do tratamento e circulação de gatos soltos.
Quanto ao suporte público, a Sesma afirmou que o SUS oferece tratamento apenas para humanos. Para os animais, o CCZ afirma que realiza diagnóstico gratuito, prescrição e orientações, mas os medicamentos são de responsabilidade do tutor.
O município também afirma realizar campanhas educativas, capacitação de agentes de saúde e ações de vigilância. Os dados de zoonoses são registrados nos sistemas oficiais, e o acesso detalhado depende de solicitação formal.
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