O que está acontecendo na Amazônia? 5 de fevereiro de 2026

Justiça manda retirar vídeos de Adriano Wilkson, e defesa aponta censura em caso envolvendo o prefeito Igor Normando

O jornalista foi obrigado por decisão judicial a remover conteúdos das redes sociais e também recebeu determinação para se abster de novas publicações que citem o prefeito de Belém

Uma decisão da Justiça determinou que o jornalista investigativo Adriano Wilkson (@adrianowilkson) retirasse do ar dois vídeos publicados nas redes sociais nos quais cita o atual prefeito de Belém, Igor Normando (MDB). Além da remoção dos conteúdos, ele também recebeu uma ordem para se abster de fazer novas publicações sobre o prefeito e sobre as alterações no estatuto dos servidores municipais, previstas na Lei nº 10.266/26, aprovada pela Câmara de Belém em dezembro de 2025. A norma tem sido alvo de críticas e denúncias de fim de planos de carreira, e o conjunto de mudanças foi apelidado por servidores de “Pacote de Maldades”.

Os vídeos removidos abordavam direitos de servidores públicos e possíveis reflexos dessas mudanças na prestação de serviços à população, especialmente nas áreas de educação, assistência social e saúde.

O caso gerou repercussão nas redes sociais, com manifestações de políticos e de parte da imprensa. A defesa do jornalista afirma que a medida configura um caso de “censura”, prática proibida pela Constituição brasileira.

O que o jornalista disse nos vídeos?

Adriano publicou vídeos com conteúdo investigativo sobre o dito “pacote de maldades”. Em uma das publicações deletadas, o jornalista fala especificamente sobre os servidores da educação de Belém e afirma que a informação de que professores do município podem ganhar até R$ 16 mil é apresentada sem contexto. Segundo ele, esse valor só seria alcançado no fim da carreira, após a criação de um novo plano com vários níveis salariais.

Ele ainda explica no conteúdo que de cordo com as mudanças o professor começaria ganhando cerca de R$ 7 mil e só poderia subir de nível a cada três anos, passando por avaliações. Com isso, levaria cerca de 45 anos para chegar ao teto de R$ 16 mil. Adriano também afirma que, até lá, o valor já estaria desvalorizado pela inflação.

A Justiça determinou a retirada do conteúdo das redes sociais e também determinou que Adriano se abstenha de voltar a publicar sobre o tema, ou seja, ele não pode fazer novas publicações sobre o caso.

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O que diz a defesa de Adriano?

Em nota divulgada nas redes sociais, a defesa do jornalista afirma que ele estaria sendo alvo de censura prévia imposta por decisões dos Tribunais de Justiça dos Estados do Pará e do Amazonas. Segundo os advogados, as determinações judiciais obrigam a remoção de conteúdos já publicados e, de forma ainda mais grave, proíbem futuras publicações sobre temas considerados de interesse público, como a gestão de contratos estaduais de alto valor e crises em administrações municipais.

A defesa sustenta que essas medidas violam diretamente a Constituição Federal, que garante a liberdade de expressão e de imprensa, além de contrariar o entendimento do Supremo Tribunal Federal firmado na ADPF 130, que veda a censura prévia no país. De acordo com a nota, impedir previamente a divulgação de informações não afeta apenas o exercício profissional do jornalista, mas também o direito da sociedade de ser informada e de fiscalizar os atos do poder público.

Os advogados também classificam o caso como um exemplo de uso do sistema judicial para silenciar a atuação jornalística, o que caracterizaria uma forma de intimidação. Por fim, a defesa informa que adotará todas as medidas jurídicas cabíveis nas instâncias superiores para reverter as decisões e garantir o pleno exercício da liberdade de imprensa e de expressão.

Veja a nota completa:

Repercussão do caso

O caso repercutiu nas redes sociais, com posicionamentos de políticos paraenses, como as vereadoras de Belém Vivi Reis e Marinor Brito, além do posicionamento do Sindicato de Jornalistas do Pará (SINJOR-PA).

Sinjor

Em nota pública, o SINJOR-PA e a Fenaj afirmam que as decisões judiciais contra o jornalista configuram censura à atividade jornalística. As entidades repudiam a ordem de retirada de vídeos publicados por ele e a proibição de que volte a tratar dos mesmos temas.

Segundo a nota, as decisões atingem denúncias sobre a Reforma Administrativa da Prefeitura de Belém e a suspeita de contratos superfaturados da gestão municipal com a empresa BRA Produtora — assuntos que, para o sindicato e a federação, são de claro interesse público por envolverem recursos e gestão pública. Elas também criticam o fato de o caso tramitar, em parte, sob segredo de Justiça.

O SINJOR-PA e a Fenaj consideram as medidas uma violação à liberdade de imprensa e de expressão, classificando o caso como censura prévia e assédio judicial. As entidades informam que estão prestando apoio ao jornalista, que vão pedir explicações à Prefeitura de Belém e que comunicarão o caso a organizações de defesa da liberdade de imprensa e dos direitos humanos.

Veja a nota na íntegra:

Vivi Reis

Em manifestação pública, a deputada Vivi Reis declarou solidariedade ao jornalista Adriano Wilkson e afirmou que ele estaria sendo vítima de censura imposta por decisões dos Tribunais de Justiça do Pará e do Amazonas. Segundo ela, as determinações que obrigaram a retirada de conteúdos das redes sociais do jornalista — envolvendo denúncias sobre a reforma administrativa da Prefeitura de Belém e suspeitas de contratos superfaturados com a empresa BRA Produtora — representam um grave ataque à liberdade de imprensa e de expressão.

No posicionamento, Vivi Reis classifica as medidas judiciais como tentativas de silenciamento de vozes críticas e associa o caso a um cenário que, na avaliação dela, revela autoritarismo na condução política no estado. A parlamentar defende que jornalistas não podem ser impedidos de divulgar denúncias relacionadas à gestão pública e afirma que é preciso resistir a qualquer forma de intimidação contra a atuação da imprensa.

Marinor Brito

Em manifestação pública, Marinor Brito declarou solidariedade ao jornalista Adriano Wilkson, afirmando que ele estaria sendo alvo de censura por divulgar conteúdos sobre temas que considera de evidente interesse público. Para ela, impedir a atuação da imprensa significa atingir diretamente a democracia e o direito da população à informação.

No posicionamento, Marinor também afirma que não se pode aceitar qualquer forma de “mordaça” ou silenciamento imposto a profissionais da comunicação. Ela reforça apoio ao trabalho do jornalista e se coloca ao lado da defesa da liberdade de imprensa e de expressão no caso.

O que é censura e por que ela fere a Constituição, segundo especialistas

A equipe do Amazônia no Ar conversou com especialistas da área jurídica, que explicaram que a censura ocorre quando o Estado impede a divulgação de informações, ideias ou críticas antes que elas cheguem ao público. Esse tipo de proibição prévia é vedado pela Constituição Federal, que garante a liberdade de expressão e de imprensa como bases da democracia.

O Supremo Tribunal Federal já firmou entendimento de que nenhum órgão estatal pode decidir antecipadamente o que jornalistas ou cidadãos podem publicar, inclusive na internet e nas redes sociais. A Corte também destaca que a proteção é ainda maior quando o conteúdo envolve assuntos de interesse público, como gastos, contratos e decisões do poder público, já que fiscalizar o Estado é parte do papel do jornalismo.

Especialistas lembram ainda que tratados internacionais assinados pelo Brasil reforçam esse direito à livre circulação de informações. Fora de situações excepcionais, impedir reportagens futuras ou proibir a abordagem de determinados temas é considerado censura prévia e um risco ao debate democrático.

O que diz a prefeitura de Belém?

A equipe do Amazônia no Ar entrou em contato com a prefeitura de Belém sobre o caso e aguarda retorno, o espaço segue aberto.


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